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[Entrevista] - Hermila Guedes: Protagonista do filme ‘O Céu de Suely’

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A atriz pernambucana Hermila Guedes, protagonista do filme O Céu de Suely, do cineasta cearense Karim Ainouz voltou a Iguatu, um ano e meio depois das filmagens para participar do lançamento do filme dentro da programação da Semana do Município. Ela recebeu placa decorativa das mãos do prefeito Agenor Neto, foi aplaudida de pé no cine Asa Branca, onde o filme foi exibido, disse que não estava cotada para ser a atriz principal, e que o filme ajudou a dividir sua carreira em duas etapas, ‘antes e depois’. Hermila concedeu entrevista ao jornal A Praça. Ela  fala do sucesso do filme, da emoção de voltar a Iguatu e a projeção de sua carreira em nível nacional.

Foto:J.Guedes
'Voltar ao Iguatu é muito legal porque foi aqui onde tive a oportunidade de fazer um trabalho que tá fazendo a diferença em minha carreira' Hermila Guedes
A Praça - O filme teve uma grande repercussão, foi premiado e já viajou o mundo inteiro com a história protagonizada por você. Isso já era esperado por você e pelo diretor Karim Ainouz?

Hermila - Não. Eu sabia que tinha feito um bom trabalho, um filme muito bacana, que pudesse mexer com as pessoas, com um diretor renomado que é o Karim Ainouz, que é um diretor maravilhoso. Amo o trabalho que ele faz. Mas eu não sabia que seria tão aceito assim.

A Praça - A Hermila do filme tem algo a ver com a Hermila da vida real?


Hermila - Tem tudo a ver. Eu acho que as duas se confundem, mas com uma diferença. A Hermila do filme é mais determinada, é mais forte do que a Hermila normal.

A Praça - No filme o diretor Karim usou nos personagens os mesmos nomes dos atores. Isso não te assustou um pouco?

Hermila -
No começou assustou porque estava usando o meu nome que é tão incomum e eu achei que as pessoas iriam me confundir com a personagem. Mas depois eu falei ‘ela tem tanta coisa minha, eu tenho dado tanta coisa minha, que de repente talvez seja até bonito isso. Essa fusão sem problemas de uma ser uma e a outra ser a outra’. E acho que ela é mais admirável do que eu.

A Praça - Você ficou em média dois meses filmando em Iguatu. Isso ajudou a criar uma certa relação de amizade com o ambiente, com a cidade?

Hermila - Eu sou do interior, sou de Cabrobó, no interior de Pernambuco. Então é muito fácil para mim sentir o interior porque eu já vivi isso. Eu não tive muito tempo de ir para a cidade, conversar com as pessoas, porque a gente filmava praticamente todos os dias, estava sempre concentrada no filme. Mas eu acho que ajudou muito morar no bairro onde o filme foi feito em grande parte, ver as pessoas, estar aqui hoje. Eu acho que a energia do lugar ajudou muito a contribuir para a interpretação dos atores.

A Praça - Você foi convidada para fazer um especial da Elis Regina na Rede Globo, depois do filme. Você acha que o filme ajudou de alguma maneira a você carrear isso, para você ir parar na Globo e fazer um especial exatamente de Elis Regina. O que isso representou para você?

Hermila -
É... é engraçado. Porque eu digo que ‘O Céu de Suely’ na minha carreira é um marco, assim. Existia minha carreira antes de ‘O Céu de Suely’ e agora existe uma carreira depois de ‘O Céu de Suely’. Porque é o meu primeiro longa como protagonista, meu segundo longa metragem. Enfim, é um trabalho que dá muita exposição e foi por conta dele mesmo, do filme, que eles me chamaram. Eles viram uma foto minha, acharam parecido, me convidaram para fazer um teste, fiz e passei. E eu acho que esse filme para mim vai ser uma exposição do meu trabalho, está sendo ainda uma exposição do meu trabalho.

A Praça - Hoje você recebe uma homenagem da administração de Iguatu, exatamente por ter criado essa relação com a cidade e o filme está tendo toda essa repercussão. O que essa homenagem significa para Hermila?


Hermila -
Bom. Eu acho que é um reconhecimento, eu nem estava sabendo, ninguém me falou nada (risos), mas enfim, eu acho que é um reconhecimento de todos, não só do meu trabalho como de todos que trabalharam nesse filme porque eu acho que o cinema é isso, o coletivo, todo mundo se ajuda, se não for assim, não sai nada, não fica tão bonito porque transcende, as pessoas vêem se o elenco está em sintonia ou não, e eu acho lindo porque a gente está também divulgando uma cidade, falando de uma cidade, falando de um Nordeste, falando de uma pessoa sertaneja do interior, uma brasileira.

A Praça - Você imaginava que o filme ganhasse toda essa premiação?

Hermila -
Para ser sincera, não. Para mim foi surpresa. Em Veneza, na Itália, as pessoas aplaudiram de pé, o filme. Lá foi a primeira apresentação do filme. Eu estava lá com o Karim, eu estava nervosa, o Karim também, foi muito emocionante ver as pessoas aplaudindo de pé. Depois foram pedir autógrafo pra gente. Isso nos marcou muito.

A Praça - Na sua avaliação, essa premiação aconteceu em função de quê?

Hermila - Eu acho que foi em função do trabalho como um todo, porque ele é um filme diferente e ele mexe muito com emoções reais. É muito forte, tudo é muito intenso, e é vivo, de verdade, tudo real ali, eu me emocionei, eu chorei de verdade, então eu acho que o filme mexe com as pessoas, porque ele toca no emocional.   

A Praça - O diretor Karim Ainouz usou Iguatu num grande cenário. Ele aproveitou muito os recursos naturais da cidade, filmando sem muita pretensão e acabou tudo dando certo. Isso estava no ‘script’, ou ele usou a criatividade para criar todo o ambiente do filme?

Hermila - Não, ele já pensava. Ele queria uma coisa, mas de forma tímida, sem que as pessoas soubessem que estavam sendo filmadas, o que estava sendo filmado. Ele queria que a cidade contribuísse dessa forma, mas sem saber que estava contribuindo. Para não ‘travar’ o câmera, a equipe, aquela coisa toda.

A Praça - Você acha que se ele tivesse anunciado não teria sido tão natural como foi?

Hermila - Eu acho que sim, porque ele queria uma coisa meio documental também. É uma função mais documental. Muita coisa que foi filmada na cidade parece meio documental, as pessoas não estão interpretando, estão vivendo.

A Praça - Você já havia feito outro trabalho no cinema antes de O Céu de Suely?

Hermila - Eu fiz ‘Cinema, aspirinas e urubus’, que estava cotado para o Oscar, mas infelizmente não foi. Ai que ódio! Não foi, tudo bem (risos). ‘Cinema, aspirinas...’ foi o meu primeiro longa, mas eu já faço cinema desde 1998, fiz inclusive outros curtas lá no interior de Pernambuco.

A Praça - Você leu o roteiro antes, você também enfrentou a maratona de testes para a composição do elenco, ou a sua escolha já foi direta?


Hermila - Eu fiz dois testes: um com o Karim e outro com a Fátima Toledo, preparadora de elenco. Eu não vim para ser protagonista, eu vim para fazer outro personagem. Foi no meio do processo, já aqui, que mudou e eu virei a protagonista. Mas foi um processo intenso com a Fátima, porque ela trabalha com a personalidade do ator. E a gente trabalhou muito nisso, foi um mês e meio com a preparação do elenco.

A Praça - E aquela caracterização que a personagem ganha, de ter mecha no cabelo, a composição do figurino, tudo foi preparado aqui em Iguatu também?

Hermila - Foi. Assim que a gente chegou aqui o Karim confiscou nossas roupas pessoais e nos deu as roupas dos personagens. Então a gente andava com as roupas dos personagens. Uma coisa meio louca e de certa forma diferente de ver, mas ficou interessante no final, porque isso ajudou também na composição da caracterização.

A Praça - Todos os figurantes do filme eram de Iguatu. Você sentiu alguma dificuldade na interação com eles?

Hermila - Não, tranqüilo, foi tudo muito legal, eu acho que o pessoal entendeu qual era a proposta do Karim para o trabalho e isso ajudou bastante. A gente estava sempre trabalhando com os figurantes em todas as cenas em que tinha figuração e não foi difícil. Eu me lembro que a gente fez umas cenas num ônibus com muitos figurantes e foi muito tranqüilo de filmar.

A Praça - Você lembra de alguns locais de Iguatu, por nome, que o Karim usou para locação do filme?


Hermila - Ah, lembro sim! Gravamos no La Barranca, no bairro Santo Antônio, onde a família morava, na Rodoviária, no Posto Veneza, no ‘Arri Égua’. Numa pracinha lá no Centro, onde tinha um posto de mototáxi, deixa eu lembrar o nome da praça... (tenta lembrar mas não consegue),.. enfim, a gente esteve em vários lugares, são muito e não consigo me lembrar de todos, mas foi uma bela experiência.

A Praça - O que você leva de Iguatu, depois de tudo isso, homenagem, premiação, toda essa repercussão do filme, e você voltar aqui, o que você leva na memória, de Iguatu?


Hermila - É engraçado porque é meio que fechar um círculo, que não termina aqui, que continua. Um ciclo de emoção, levando um ciclo muito bacana de tudo que aconteceu, do que a gente está levando para essas pessoas. Voltar a Iguatu, para mim, é muito legal, porque foi aqui onde eu tive a oportunidade de fazer um trabalho que está fazendo a diferença na minha carreira como atriz. Eu volto para minha rotina, meu trabalho e levo boas lembranças desta cidade e de sua gente.

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