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[Entrevista] - Médico Nelson Benevides

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O médico Nelson Benevides, pai dos estudantes de medicina Marcelo e Leonardo, assassinados há 8 dias em Iguatu, falou para o jornal A Praça na tarde de ontem. Com quatro quilos a menos e totalmente abatido, o médico que há poucos dias estampava no rosto o brilho da esperança, agora luta consigo mesmo para não desistir, ainda abalado por uma tragédia sem proporções. Na entrevista, Nelson diz que a morte de seus dois filhos vai mudar a história da Segurança no Estado do Ceará.

Fotos:J.Guedes
O médico Nelson Benevides disse que a morte de seus filhos vai mudar a segurança no estado do Ceará
A Praça - Passados oito dias desta tragédia que chocou o Centro-Sul, o Sertão Central e todo Estado do Ceará, como pai, qual é o sentimento do senhor hoje?

Dr. Nelson -
O sentimento se resume naquele mesmo sofrimento, daquele impacto, do primeiro contato que eu tive com meus dois filhos, quando cheguei ao Hospital Regional. A minha esperança é que a cada dia a dor diminuísse, mas é uma dor que não cessa, é uma dor que não me dá sossego, a cada dia a saudade dos meus filhos se multiplica. Eu me lembro deles, eu vejo eles em tudo que está a minha volta. É uma tristeza, é uma dor que só com o poder de Deus vamos conseguir nos conformar.

A Praça - O Senhor já estava trabalhando com eles, realizando cirurgias, já que os dois faziam residência médica e se tornariam cirurgiões ainda este ano. O que o senhor sentiu ao chegar ao Hospital e encontrar seus filhos naquela situação?

Dr. Nelson -
Foi um choque tão brutal, é um trauma tão grande na minha vida, que não consigo assimilar. Para mim é como se o mundo tivesse desabado ali, naquela hora, eu não queria acreditar naquilo, para mim é como se tivesse sonhando. Esse trauma eu vou carregar para o resto da minha vida. Eu nunca imaginei em toda minha vida, que um dia eu chegaria ao Hospital Regional, onde trabalhei com eles, operei com eles, colegas médicos, do Hospital Regional, que também trabalharam com eles, e de repente você é chamado ao Hospital que você trabalha há tanto tempo, e quando abre uma porta encontra os dois filhos mortos daquele jeito. Nossa!, você não faz idéia como foi difícil para mim ver aquela cena. É uma coisa que não vou esquecer nunca em toda minha vida.

A Praça - O senhor imaginou em algum momento que seus filhos fossem vítimas da violência desta maneira?

Dr. Nelson –
Não. Nunca. Nunca imaginei que isso fosse acontecer com eles. Meus filhos são pessoas de bem, eram estudantes, meninos bons, que tinham o carinho e o amor de todos. Nunca ninguém ouviu falar de nada, absolutamente nada deles. Posso assegurar que esse rapaz que matou meus filhos, ele não atirou no abdômen deles, não. Ele acertou também o meu coração. Eu sinto a mesma dor que meus filhos sentiram.

A Praça - Nesta primeira semana após o episódio, o senhor tem recebido diariamente a solidariedade das pessoas mais diferentes. Isso, de alguma maneira tem ajudado o senhor a superar este momento tão difícil?

Dr. Nelson -
Olha, a razão de eu ainda estar de pé, conseguir falar, pensar, dar entrevista, falar sobre eles, é essa solidariedade tão grande de toda parte do Brasil que tem chegado. Nossa vida, em nossa casa, houve uma mudança muito grande. A gente não consegue dormir, a gente não consegue se alimentar, não consegue se concentrar, nem ter noção do tempo, de nada... Tudo que está nos mantendo de pé, somente graças ao apoio e a solidariedade dos amigos e de todas as pessoas.

A Praça - O senhor ficou surpreso com o fato de um oficial da Polícia ter causado tudo isso no meio de sua família?

Dr. Nelson -
Eu, sinceramente não esperava nunca que isso fosse acontecer, eu não esperava nunca uma tragédia dessas com meus filhos, que nunca fizeram o mal a ninguém, muito pelo contrário trabalhavam ajudando a salvar vidas, porque foi isso que eu ensinei a eles desde pequeno, sempre fazer o bem. Imagine que nós que somos pais nunca imaginamos que nossos filhos possam morrer antes de nós, a sensação que temos é que vamos primeiro. A gente não consegue imaginar nunca, que dois jovens como meus filhos, de 24 e 26 anos, fossem morrer tão cedo, tão precocemente e de uma maneira tão covarde e tão brutal. Não é fácil para nenhum pai ver seus filhos serem mortos, principalmente em se tratando do criminoso ser um Comandante da Polícia Militar do Ceará?! Que país é este, minha gente? Que país é este!? Onde é que vamos parar com tudo isso!?

A Praça - Como é que o senhor vai lembrar de Leonardo e Marcelo, daqui para frente?

Dr. Nelson -
Vamos lembrar deles como dois filhos maravilhosos, dois jovens que estavam fazendo um trabalhando lindo aqui em Mombaça e no Centro-Sul. Dois profissionais que teriam com certeza uma carreira brilhante pela frente, e que lamentavelmente tiveram suas vidas interrompidas desta maneira. Eles eram como duas crianças, sorriam, sonhavam, davam risadas, eram duas pessoas humanitárias, viviam em função de salvar outras vidas.

A Praça - Em momentos a defesa do acusado afirmou que a arma usada nos crimes era de um dos rapazes. O senhor é conhecido em Mombaça e em toda Região como um homem pacato e uma pessoa de bem. Com seus filhos não seria diferente. O que o senhor achou dessas declarações?

Dr. Nelson -
Eu achei uma falta de respeito e sentimento conosco, com nossa família. É um absurdo o camarada dizer um negócio desses. Em nossas mãos não comporta arma, em nossas mãos só cabe livro e caneta, são nossos instrumentos para o trabalho e para a vida. Não só a minha cidade, Mombaça, mas a minha segunda pátria que é Iguatu, todos conhecem a nossa trajetória profissional, conhecem de perto a nossa vida e sabem que nós nunca fomos de agressividade nenhuma. Pelo contrário nós sempre trabalhamos com uma filosofia que é de salvar vidas, e nunca tirar vida de ninguém.

A Praça - Se o senhor tivesse a chance de ficar cara a cara com o assassino dos seus filhos, o que o senhor diria para ele?

Dr. Nelson -
Eu diria que ele dissesse a verdade, fosse verdadeiro, não ficasse tentando incriminar meus filhos, que não tiveram sequer a chance de se defender da mira dele. Eu diria a ele que ele tirou duas das coisas mais preciosas da minha vida, da vida da minha família. Eu diria a ele para ele pensar no que ele fez com meus filhos. Porque eu acho que só em pensar num negócio desses, se a pessoa tiver qualquer sentimento ela poderá lembrar para o resto da vida.

A Praça - E se o senhor tivesse a oportunidade de dizer uma última palavra, ou uma última frase, um fazer um único gesto para seus filhos, o que o senhor diria, o que o senhor faria?

Dr. Nelson -
Ah, meu Deus, como eu gostaria de rever meus filhos de novo, eu não sei... Acho que faria um milhão de coisas com eles, abraçaria, beijaria e diria que os amo muito, diria que os amo muito, vou continuar amando-os muito até o fim da minha vida.

A Praça - O que o senhor espera daqui para frente da Justiça, para que a morte de seus filhos não fique na impunidade?

Dr. Nelson -
O que eu realmente espero é que a morte dos meus filhos não fique impune. E eu posso afirmar que isso que eles sofreram vai mudar a história da segurança pública no Estado do Ceará. A morte dos meus filhos não vai ficar em vão, foi um grito de clamor muito grande em todos os lugares, no Brasil todo, onde você chega as pessoas estão falando sobre esse caso. Eu tenho certeza que vai haver uma grande mudança na segurança do nosso Estado. Eu tenho certeza que vão começar a retirar esses assassinos, esses bandidos que estão no meio da segurança do Estado do Ceará. Hoje, eu acho que tem mais ‘bandidos’ no meio da Segurança, tem mais assassino na Segurança, do que na rua.

A Praça - O senhor espera que a tragédia com seus filhos possa mudar o quadro da Segurança no Ceará?

Dr. Nelson -
Isso é o que eu espero que aconteça, e eu sei que este também é o desejo de todos os pais, as famílias. Nós não podemos mais viver num Estado com um modelo de segurança como esta, quando um oficial, um capitão, um homem treinado, qualificado, praticar crimes tão bárbaros, ele matar dois jovens da maneira como ele matou meus filhos. Veja que a cidade está unida, a cidade está em silêncio, nos preparamos para a missa de 7º dia, numa grande celebração ecumênica com a participação da igreja católica, dos evangélicos, hoje a cidade não tem partido, não tem divisão, a cidade está vivendo num só coração. E o que nós esperamos é que este ato seja o primeiro grande passo para uma grande mudança na Segurança Pública em nosso Ceará.

Comentários  

 
#1 Jaime Nunes Guedes 15-07-2010 17:01
É de causar muita indignação. Relíquia a do sistema coronelista do ceará chamado impunidade. Minha solidariedade ao Pai e a mãe. E execução sumária a esse bandido covarde, oficial de pior espécie humana, que em *** não haveria perdão. Seria sumariamente **** com as mãos na frente ou não.
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