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Entrevista - Alemberg Quindins, presidente da Fundação Casa Grande de Nova Olinda

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Alemberg Quindins, 32, diretor-presidente do projeto Fundação Casa Grande, do município de Nova Olinda, esteve em Iguatu participando do encontro ‘Comunidade Aprendizagem’, que aconteceu no auditório do Crede-16, numa articulação do Conjunto Integrado de Projetos-CIP, 40 entidades e instituições, de cinco municípios, Iguatu, Jucás, Acopiara, Orós e Quixelô, incluindo o Instituto Elo Amigo. Ele foi convidado pelos organizadores do encontro para narrar as experiências no projeto Fundação Casa Grande, com ações espalhadas pelo Brasil e pelo mundo inteiro. Conheça nesta entrevista exclusiva ao A Praça, como ele conseguiu transformar a vida de uma cidade e a cultura de um povo trabalhando com crianças e colocando em prática as idéias construídas na infância.

Foto:J.Guedes
Alemberg Quindins, presidente da Fundação Casa Grande
A Praça - Como surgiu a idéia de criação desse projeto Fundação Casa Grande?

Alemberg - A Fundação nasceu no ano de 1992, com o intuito de resgatar a memória do povo do Cariri e criar um museu nas áreas de arqueologia e mitologia. Junto a isso, nós resgatamos o utensílio da cultura da Região, nas áreas da arqueologia e mitologia e também nas áreas de artes e comunicação. E dentro dessa instituição nós resgatamos a parte da memória cultural, criando assim um Centro de Cultura voltado para a infância. E hoje nós temos na Casa Grande um programa voltado para a memória, comunicação, artes e turismo.

A Praça - Nova Olinda tem uma população estimada em 13 mil habitantes, desse total 10 mil residem na zona rural. Você disse em sua apresentação, durante o encontro em Iguatu, que somente num período o município recebeu mais de 28 mil turistas. Essas pessoas visitaram a cidade atraídas pelo projeto Fundação Casa Grande?

Alemberg - É. Nova Olinda era um ponto de passagem onde se passava ou para Assaré, por causa de ‘Patativa do Assaré’, ou então para o município de Santana do Cariri para conhecer o projeto de Paleontologia, um museu de fósseis que existe lá e que nasceu primeiro do que o projeto Casa Grande. Então, do projeto Casa Grande já surgiu o memorial ‘Patativa do Assaré’, inspirado na Fundação, o próprio Estatuto do Memorial foi baseado no Estatuto da Fundação. Então, essas pessoas têm parado em Nova Olinda. E nós temos um atendimento em média que já chegamos a receber três mil visitantes por mês. Esses 28 mil turistas e visitantes que passaram pela fundação Casa Grande, são estudantes que usam a Casa Grande como um laboratório extra classe, são turistas e pesquisadores que vão fazer desde teses, até estudar a forma pedagógica como a fundação Casa Grande vem trabalhando, e outras pessoas que vão até Nova Olinda, para se hospedar e conviver com as crianças. Pessoas que são, não somente da Região do Cariri, mas do Brasil todo e até de outros países. Daí, a Casa Grande ter uma extensão hoje na África, um programa ‘De Criança pra Criança’, abrindo espaço nas rádios africanas para as crianças. Hoje nós temos sete programas, em sete províncias de Angola, e nós temos hoje em Moçambique 32 programas de rádio, de criança pra criança, envolvendo duzentas crianças nas províncias. Esse trabalho é feito em parceria com o Unicef. E agora nós iniciamos uma parceria com a Prefeitura de Pontedêra, na Itália, na região de Pisa.

A Praça - Na Fundação Casa Grande as crianças não têm Bolsa de Estudo, nem salário ou qualquer outro tipo de ajuda financeira. Qual é o grande ganho para elas no projeto?

Alemberg - Olha, a gente vê que no Nordeste existe muita procura de instituições, em detrimento da alimentação que essas instituições oferecem e das ‘bolsas’ que elas oferecem. O que acontece é que quando falta a alimentação ou as ‘bolsas’, há uma evasão. E desde o início nós traçamos que a nossa moeda seria o conhecimento, a cultura, a intelectualização. Então a gente traçou que nossa meta seria buscar conteúdo e qualidade. Hoje na fundação Casa Grande nós temos uma Gibiteca com 2.600 gibis, temos bonecos articulados e livros com histórias em quadrinhos. Nós temos hoje em Nova Olinda a melhor Gibiteca do Brasil e uma das melhores da América Latina. Nós temos uma DVDTECA com mais de 1.600 títulos, com o melhor do ‘cinema de arte’ do mundo. Tem filme que não saiu nem na Itália e nós temos na Casa Grande, para esses meninos terem acesso. São coisas que desde o início a gente traçou e que seria importante a gente ter. Justamente a esse nível de qualidade a gente consegue fazer com que as crianças e adolescentes tenham naquilo um valor e permaneça na Casa Grande, tendo como objetivo a qualificação através da profundidade de conteúdo.

A Praça - Quais são as principais habilidades que as crianças desenvolvem no projeto Fundação Casa Grande?

Alemberg - As habilidades estão dentro dos laboratórios de produção. Nós temos a TV onde os meninos aprendem a editar, filmar roteirizar, nós temos a Rádio onde eles aprendem a fazer um programa de rádio com roteiro, com texto, fazendo também a parte operacional, com locução, nós temos a Editora que é outro laboratório de produção, que é onde os meninos aprendem desde fazer um cartaz, a fazer um jornal, a fazer uma revista em quadrinhos, nós temos também o teatro onde eles aprendem toda operacionalidade do teatro desde a parte de sonoplastia, iluminação, cenografia, produção, então são esses laboratórios de produção que fazem com que eles possam produzir a um nível de qualidade daquilo que eles viram nos laboratórios de conteúdo que é a GIBITECA a DVDTECA, a CDTECA da Fundação, a biblioteca, então eles trabalham em conjunto. O laboratório de conteúdo é um formador interior dos meninos, e o laboratório de produção são formadores técnicos, manuais, daquilo que eles vêem no de produção.

Foto:J.Guedes
Alemberg disse que a Fundação nasceu para resgatar a memória do povo do Cariri
A Praça - Em 15 anos a Fundação já apresenta resultados concretos do trabalho social com as crianças. A partir daí, o que acontece com elas quando as crianças crescem? Tornam-se profissionais com habilidade nessas áreas? Para onde elas vão? Continuam em Nova Olinda ou conseguem trabalho nas emissoras de rádio, TV e jornais?

Alemberg - Bem, a meta da Fundação Casa Grande não é profissionalizar. É através do domínio daquele meio ele formar dentro de si, multivisões. Você vê um estudante da universidade, muitas vezes, termina o 2º grau e ele entra num curso da faculdade e quando é com seis meses ele descobre que não era aquilo que ele queria fazer. Veja só: se uma criança começa desde pequena, com 9 anos de idade a saber o que é uma rádio, saber o que é uma televisão, a saber o que é um museu, de dentro, então este cidadão vai estar preparado, até pra se ele não quiser nada daquilo, ele ter uma ‘bodega’ na cidade, mas ser um bodegueiro diferente. Um bodegueiro com uma visão mais bem formada daquilo que ele quer para a vida dele. Os meninos da fundação Casa Grande, alguns já são professores, outros são coordenadores de instituições, tem meninos que estão em ONG’s, no Rio de Janeiro, mas a gente não fica naquela, ‘qual foi o menino que fez sucesso, qual foi o menino que deu certo?’. Para nós o que deu certo é aquele que foi para o Rio de Janeiro e aquele que ficou em Nova Olinda, porque para nós o importante é ele saber daquilo que atenda as suas necessidades.

A Praça - Então não existe uma estratégia de formação profissional, mas sim, pessoal?

Alemberg - Isso, isso. A gente não tem essa coisa de ‘vou preparar esse menino para ser radialista’. Já pensou num menino que aos 9 anos de idade começa a ser preparado para ser radialista? Esse menino pode chegar um dia e dizer para ele mesmo, ‘eu só sou radialista porque vivi a vida toda dentro de uma rádio. Então eu acho que é importante conhecer tudo, para que ele possa ter uma opinião formada sobre essa diversidade que existe no planeta, de profissões e oportunidades.

A Praça - Como é que a Fundação faz para captar os recursos necessários ao seu funcionamento?

Alemberg - As parcerias da Fundação têm sido em várias instâncias. Nós já tivemos convênios com a prefeitura, com o governo do Estado, com o Ministério da Cultura, e também com instituições internacionais, tipo a Fundação Kellogs, a Fundação Avina, Intero América Fundatition, Instituto Ayrton Senna e outros. Essas aberturas para as parcerias, elas são voltadas mais para de acordo quando a gente inscreve os projetos e eles são aprovados.

A Praça - Esse trabalho de formação pessoal e social das crianças, através da Fundação Casa Grande, está ajudando a mudar a vida da cidade, do ponto de vista da educação e da cultura das pessoas para enxergar o mundo por outra janela, com outros olhos?

Alemberg - Tem sim. É tanto que a cidade de Nova Olinda ganhou o ‘Selo’ da Embratur, e agora foi escolhida como Pólo Turístico da Região do Cariri. E a Casa Grande recebeu do Unicef o prêmio pelo ‘melhor projeto’ na área da Educação e o ‘mais criativo’ do Estado do Ceará. E também agora a cidade de Nova Olinda foi condecorada com a medalha ‘Ordem do Mérito Cultural’, recebida das mãos do presidente Lula. Isso tem feito com que Nova Olinda cresça junto, porque a cidade tem recebido recursos do Ministério do Turismo, da secretaria de Turismo do Estado, e isso tem ajudado a melhorar a estrutura da cidade, com praças, com condições mais adequadas para um município que recebe turistas.

A Praça - Há alguma sinalização do governo do Estado, em relação aos investimentos em turismo especificamente no município?

Alemberg - Existe uma sinalização da secretaria de Educação do Estado, que hoje quer implantar o sistema, onde estudantes de várias cidades do Ceará possam passar um fim de semana na Casa Grande, fazendo curso e convivendo com esses meninos na Casa Grande, para trazer para as escolas, a apropriação de espaços públicos, espaços como a biblioteca da escola, os pátios, uma formação de cidadania e parceiro da escola.

A Praça - É verdade que o município de Nova Olinda foi escolhido entre quatro cidades do Ceará para receber investimentos na área de turismo pelo governo federal?

Alemberg - É, será através do Ministério do Turismo, foram quatro cidades escolhidas; Fortaleza, Aracati, Canoa Quebrada e Nova Olinda, que são prioridades no Ceará, para investimentos na área do turismo, no setor de infra-estrutura. Em cada cidade dessas vão desenvolver bons projetos para ter bom aproveitamento. Eu vejo esses investimentos, não como uma premiação, mas como um desafio. Vamos precisar de projetos inteligentes que estejam dentro da realidade do município.

A Praça - Em média, quantas crianças e adolescentes são atendidas hoje na Fundação?

Alemberg - A Fundação tem um quadro de monitores e meninos que estão permanente, como aluno de gestão cultural, num quadro de 70 crianças, e a gente chega a ter um segundo grupo de crianças e jovens que estão diretamente na Casa Grande e estão sendo formados, que dá uma média de duzentos no total.

A Praça - E para ingressar na Fundação Casa Grande, como é que faz? Qual é o perfil da criança para entrar no projeto?

Alemberg - Não existe um perfil padrão para as crianças. O primeiro requisito é que a criança esteja na escola, porque a Fundação é um complemento escolar. Essa é uma condição. Daí em diante é ele ficar na Casa Grande. Então, a gente não vai atrás do menino, não é aquela instituição que o pai vai levar o menino lá, não. É uma escolha dele, ele vai até a Casa Grande e permanecer lá é uma escolha dele. Quando ele entrar na Casa Grande, ele é observado, depois um Conselho formado pelos próprios jovens é que diz: “Esse aí já pode receber o uniforme da Casa Grande”. Recebe o uniforme e passa a ser um aluno da Fundação Casa Grande.

A Praça - Quem é o Alemberg, que há 15 anos teve esse estalo de criar esse projeto, transformar a vida de uma cidade e a vida de muitas pessoas? Você trabalha sozinho? Quem são seus parceiros, qual é a sua profissão?

Alemberg - Na verdade o que eu quis foi criar um espaço onde a criança mandasse. Normalmente a criança, nem mesmo na família dela, ela tem voz. Quando o pai vai construir a casa, ele nem consulta o filho qual a cor que ele quer no quarto onde vai dormir. Então, a criança não influi na praça que ela quer. As leis são ditadas pelo mundo dos adultos. E lá a criança que levou a idéia da televisão tinha 12 anos de idade. Então é um lugar onde a criança pode dar idéia e a gente vai idealizar a idéia dele e entregar para que ele mesmo administrar. A ‘Casa Grande’ é uma escola de criança pra criança, onde existe a apropriação da cidade a partir da infância. E eu sou um cidadão comum. Eu sobrevivo do meu trabalho, tenho dois projetos de rádio a cabo, um em Crato, outro em Juazeiro e é desses projetos que eu sobrevivo.

A Praça - Dá para ganhar dinheiro trabalhando num projeto social?

Alemberg - Projeto social não é para ninguém ganhar dinheiro. Agora, o que acontece hoje é que eu sou convidado para ministrar palestra no Brasil e no exterior. A minha agenda está cheia até março do ano que vem. Por exemplo, agora eu vou dar uma oficina em Angola, na África, em março eu faço Portugal, Itália e Alemanha. De certa forma, nós somos remunerados para ministrar essas palestras e as oficinas. Os meninos também da Fundação Casa Grande, hoje já dão oficinas nesses locais também, são pagos por este trabalho.

A Praça - Você enxerga isso como resultado do trabalho ao longo desses anos de criação do projeto?

Alemberg - Olha, para ser sincero, eu não criei o projeto para isso, não era meu objetivo. Isso é uma conseqüência dos resultados que a gente tem conseguido. Agora mesmo encerrei uma turnê em São Paulo passando pelo Brasil inteiro com uma série de palestras através da Fundação Itaú. E para isso eles me deram todas as condições. Mas isso é o mínimo. O que eu gosto mesmo é de ver as coisas acontecendo. Eu me sinto um embaixador das crianças no mundo dos adultos. Meu trabalho é esse. Hoje eu tenho a felicidade de viver minha infância duas vezes. Minha fonte de idéias vem da infância. São todas as coisas que eu fazia quando era criança. Eu fazia história em quadrinhos, eu tinha um cineminha, eu tinha um timinho de futebol, eu tinha uma bandinha de lata e é isso que tem lá na Casa Grande.

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