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Entrevista: Marluce Pinheiro Nascimento - Ela viu o horror de perto

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Francisca Marluce Pinheiro Nascimento é o próprio retrato da dor e do sofrimento. Oito dias depois da tragédia com o filho Charles Reinan, morto por engano numa operação da Polícia Militar, na localidade de Varjota, a 2 quilômetros do Centro de Iguatu, a mulher de 51 anos não consegue voltar pra casa. Ela está amparada na residência da filha, num bairro de Iguatu. Tem dificuldades para dormir, não se alimenta direito e está sob efeito de tranqüilizantes recebendo acompanhamento psicológico. Francisca Marluce recebeu nossa equipe e falou com exclusividade para o jornal A Praça sobre as cenas de horror que viveu em frente à sua residência na noite da quinta, 20 de setembro, quando seu filho Charles Reinan, 29, foi morto com um tiro de fuzil, confundido pela PM com um assaltante.

 

Fotos:J.Guedes
Marluce Pinheiro, 51, não pôde socorrer o filho Charles, atingido por tiro de fuzil

A Praça - Como a senhora tem vivido esses oito dias após a tragédia com o seu filho?

Marluce - Tenho procurado forças, mas acho que não tenho mais onde buscar. Mas tenho tido muita ajuda, principalmente dos amigos, da minha religião, pois eu sou do ECC-Encontro de Casais com Cristo, meus familiares, meus amigos e muita fé em Deus, porque se não fosse ele, eu não estaria mais viva. Eu nunca imaginei passar por aquilo e cheguei até a dizer para o meu marido, eu não sou melhor do que nenhuma mãe, mas acho que não agüento perder um filho. E aconteceu comigo, aquela coisa horrível, eu assistir aquilo, aquela brutalidade, aquele desrespeito, é tudo muito difícil para mim...(pausa)

A Praça - A senhor já tentou apagar da memória as imagens daquela noite?

Marluce - Não, não consigo esquecer aquilo, está tudo ainda muito vivo em minha cabeça. É tão difícil que estou sendo acompanhada por um psicólogo e também preciso até tomar remédio controlado. Quando consigo dormir, fico sonhando, não com o caso, mas com outros fatos parecidos. Com meu filho mesmo, ainda não sonhei. Mas está tudo muito vivo, muito presente, que não consigo nem ir para minha casa.

A Praça - Depois do episódio a senhora não voltou mais lá?

Marluce - Voltei só quando o corpo estava lá, fiquei algumas horas e não tive como ficar. Pedi para sair. Acho que não tenho coragem. Acho honestamente que não tenho mais condições de morar na minha casa.

A Praça - A senhora teme que possa ficar lembrando o tempo todo?

Marluce - É, também isso. Não dá para não lembrar. Não dá para chegar lá e não entrar em desespero quando lembrar de tudo que vivi, vendo meus filhos sendo massacrados sem ter cometido nada, sem ter culpa de nada...

A Praça - O Charles foi morto bem próximo de sua casa. Algum dia a senhora imaginou que isso pudesse acontecer?

Marluce - Não. Nunca passou sequer pela minha cabeça. Eu sempre fui uma mãe muito preocupada, sim. Sempre que eles saíam eu ficava muito preocupada, rezava muito, fiquei muitas vezes na calçada olhando se eles não estavam chegando. Quando ficava tarde e eles não voltavam eu botava uma cadeira na calçada e ficava esperando eles voltarem para casa. Às vezes eu dizia para meu marido que tinha muito medo de uma notícia ruim com eles. Eu achava que não agüentaria, agora presenciar meus filhos, um morto e outro quase morto nunca imaginei.

A Praça - A senhora ainda tentou socorrê-los? O que aconteceu nessa hora?

Marluce - Eu pedi socorro. Eu clamei por socorro. Gritei muito. Pedi um copo com água, minha garganta estava seca, eu não agüentava mais e quando meus vizinhos tentaram me dar um copo com água, minha vizinha tentou me socorrer com um copo com água e eles escalaram a arma em cima dela, ordenaram que ela voltasse, entrasse e fechasse a porta, senão atiravam.

A Praça - Por que razão os policiais tomaram essa atitude? A senhora consegue imaginar?

Marluce - Na minha concepção, acho que se o Júnior (o que sobreviveu), morresse, seria bem mais fácil a história para eles. Porque como eles dizem que foi uma perseguição, não foi. Porque de onde eles estavam para minha casa, não sei direito a que distância, mas era muito perto. Sei que não houve nenhuma perseguição. Eles queriam que meu outro filho morresse para tentarem se limpar.

A Praça - A senhora não teve medo de enfrentar os policiais naquela hora?

Marluce - A princípio eu achei que eles queriam atirar no meu outro filho, porque eu estava na frente, o Charles já sem vida, e o que estava vivo desmaiado na calçada, sangrando muito, e...(pausa chora)...e eles partiram três, com armas pesadas e gritavam fortemente comigo ‘Saia! Saia! Saia! Afasta! Afasta! Afasta!’ Isso de maneira desumana. E eu pedia...(chora novamente)... pessoal não faça isso com meu filho, já tem um filho morto, não mate meu outro filho. E eles gritando, com aquele berro, uma coisa muito difícil de esquecer... não agüento, meu Deus.... Eles disseram que iam socorrer meu filho e eu perguntei: como vocês vão socorrer meu filho de arma na mão?

A Praça - A atitude dos policiais não era de tentar socorrer o rapaz que estava ferido?

Marluce - Olha, o que eu entendo é que sofri a dor de perder dois filhos. Graças a Deus que um deles sobreviveu, mas eles gritavam e eu senti que eles queriam que eu saísse da frente para eles atirarem no meu filho. Se aquilo tivesse acontecido num local deserto, longe da minha casa, eu não tenho dúvidas de que teria acontecido o pior... Ainda bem que a comunidade se manifestou. Houve revolta das pessoas com aquilo, as pessoas queriam passar, eles não deixavam, as pessoas queiram socorrer, eles não deixavam, um amigo de meus filhos tentou socorrer, eles jogaram a arma. Um tal de Júnior... Júnior Lourinho, esse amigo de meus filhos disse: “Júnior Lourinho, é o Charles. Deixa eu socorrer o rapaz”... e esse Júnior Lourinho também conhecia meus filhos, e ele só disse a ambulância já vem!

A Praça - Por que os policiais não deixavam que ninguém socorresse as vítimas?

Marluce - Eu acho que eles estavam querendo ganhar tempo, porque o meu filho estava sangrando muito, para que ele morresse e aí a história seria ótima porque eles iriam dizer o que quisessem, não ia ter ninguém para contar a verdade...

A Praça - No âmbito da Justiça, o que aconteceu daquela dia para cá?

Marluce - Eu fui depor na delegacia. No dia do enterro do meu filho, eu fui depor. Contei tudo que sabia e até perguntei ao delegado: ‘o que o senhor acha de tudo isso?’ (chora novamente). Eu pedi justiça a ele, pedi sim, mesmo diante da justiça, mas a gente no desespero fica pedindo, era tudo que eu podia fazer por meu filho. A gente fica pedindo explicação, mas não há explicação diante de uma monstruosidade dessas. Eu não consigo ainda entender por que eles fizeram aquilo, eles sabiam que meus filhos eram inocentes, já haviam matado um deles, eles não viram meu desespero, mesmo que a Lei não permitisse que policial socorresse, mas eles não deixaram ninguém socorrer, foi uma crueldade sem tamanho.

A Praça - O que o delegado disse à senhora quando do seu depoimento?

Marluce - Ele falou para mim, falou até baixo, e disse: “Eu acho que vai ser feita justiça”.

A Praça - Em algum momento a senhora, ou alguém da sua família, recebeu algum tipo de pressão por parte da polícia para não falar, para não promover nenhum tipo de movimento de protesto por esse ato?

Marluce - Não, não recebi nada disso não. Nenhum ameaça.

A Praça - A senhora foi procurada por alguma autoridade policial, ou da justiça nesse período após a morte de seu filho?

Marluce - Não.

A Praça - Daqui para frente, o que é que a senhora espera que aconteça?

Marluce - Espero justiça. Isso não pode ficar impune, não... (choro). Eu clamo por justiça! É tudo que eu peço: que seja feita justiça! Eu peço de um por um, para que ajude a fazer justiça, para que nenhuma mãe, nenhuma família passe o que a gente tá passando... porque é muito doloroso, é muito triste, é desumano.

A Praça - É verdade que a família está articulando um movimento para chamar a atenção da sociedade e das autoridades diante deste caso envolvendo seu filho?

Marluce - É. Temos sim. Segunda-feira, se Deus quiser, vai haver uma manifestação. Muitas pessoas já se propuseram a ajudar e a gente vai estar lá pedindo por justiça!

A Praça - Por que o dia escolhido foi a segunda-feira?

Marluce - Quando a gente estava na missa de 7º dia, o padre sugeriu que fosse na segunda-feira, já que o governador vai estar aqui.

A Praça - A senhora espera que o governo do Estado reconheça o erro cometido?

Marluce - Olha, o erro grande vem lá de cima. Eu acho que o Estado é responsável, porque eles colocaram uma arma nas mãos de um bandido, que são os piores bandidos, que eles relatam. Houve uma sessão na Câmara, e a  minha irmã estava presente, e tinha um comandante, que é o comandante quem manda fazer, e eu considero o mesmo criminoso. Quero que seja feita justiça. Quero que ele pague também, porque ele disse na Câmara que era uma justiça de Deus. Esse homem disse que era do ECC e eu lamento. Eu sou do ECC e tenho pena que o ECC tenha um monstro como ele fazendo parte. Um maldito daquele querendo se passar por bom, querendo usar a palavra de Deus, querendo se limpar. Mas a mão de Deus vai pesar nele (chorando), com certeza, eu tenho fé em Deus, porque Deus existe, e a mão de Deus quando pesar nele, ele vai sentir a dor que eu estou passando. Eu pedi tanto! Eu implorei tanto! E eles não me atenderam. Meu marido olhou para esse comandante e perguntou: “O senhor não tem família”?

A Praça - A senhora lembra qual foi o último momento em que esteve com o Charles?

Marluce - O último momento com ele foi aqui, na casa da minha filha, ele muito alegre, rindo muito, muito satisfeito, meu filho era muito feliz. Ele tinha muitas amizades, gostava muito de brincar, muito divertido. Naquele dia eu conversei pouco com ele. Estava muito alegre... (pausa... chora). Meu filho morreu inocente, ele não sabe ainda porque morreu. Meu outro filho que sobreviveu falou que ele disse: “Nos atingiram, vamos morrer”. E quando ele foi caindo meu esposo ouviu ele dizer: “Tô morrendo”. Naquela hora eu me preocupei mais com o que sobreviveu porque eu vi muito sangue nele. Aí eu perguntei a meu marido, cadê o Charles? E ele respondeu, o Charles tá morto. Meu Deus! E vi meu filho banhado de sangue, morto, emborcado no chão...(chora). Eu cheguei perto, coloquei a mão na respiração dele e vi que ele estava sem respiração.

A Praça - O que a senhora sentiu naquele momento?

Marluce - Não sei. Naquela hora é como se eu tivesse ido para outro lugar. Fiquei fora de mim e quando tornei, não sei é muito difícil para uma mãe, vê um filho morto daquele jeito. Eu preocupada com meu filho cheio de sangue e enfrentar aquela polícia toda. E eles nunca tiravam as armas do punho. Quando os três policiais se aproximaram de mim, eu gritava, e dizia ‘meu Deus, o que está acontecendo? Porque meus filhos nunca brigaram com ninguém, nunca fizeram mal a ninguém, o que está havendo?’ Eu não conseguia entender aquilo, sinceramente.

A Praça – Onde a senhora está encontrando forças para superar tudo isso?

Marluce - Em Deus. Nossa Senhora. Eu não tenho dúvidas de que ela está me ajudando muito, ela que sofreu também, viu seu filho ser sacrificado na cruz. Eu sei que se não fosse o poder de Deus, não sei o que tinha acontecido comigo, é muito difícil...

A Praça - O que a senhora diria para outras mães e outros filhos, nesse momento?

Marluce - Que clamem por justiça! Justiça! Eu vi acontecer o caso daqueles médicos. Em seguida eu vi acontecer o caso do meu sobrinho, o ‘Lucas’, filho do Laudenir, e aquilo também foi conseqüência da polícia, porque esse cara já havia matado duas pessoas, estava preso, não por causa das mortes, mas por outros motivos que eu não sei quais são, e soltaram ele. Pagaram fiança e soltaram ele. Se ele estivesse preso, no devido lugar, ele não teria matado meu sobrinho. Tudo isso é irresponsabilidade da justiça e da incompetência da justiça. E a minha mensagem que eu deixo para todas as mães, é que elas amem muito seus filhos, e que os filhos amem muito suas mães, seus pais, e que clamem, lutem por justiça, porque naquela hora, eu nunca pensei que fosse ser uma delas, e para que não aconteceça com nenhuma, o que está acontecendo comigo. É muito doloroso. Só sabe quem passa.

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