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[Entrevista] - Dr. Luiz Odorico Andrade Monteiro

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O Jornal A Praça com exclusividade entrevista nesta edição, o médico e doutor em saúde coletiva pela Unicamp (Campinas/SP), Luiz Odorico Andrade Monteiro, atual secretário de saúde de Fortaleza. Ele fala de sua experiência como gestor em saúde, também opina sobre saúde de Iguatu e relata um pouco sobre sua infância vivida aqui do qual nutre muitas amizades. Dr. Odorico vem à Iguatu receber uma homenagem pela Câmara Municipal de Iguatu com o título de Cidadão Iguatuense.

Foto:Divulgação
Dr. Luiz Odorico Andrade Monteiro
A Praça: Como o senhor recebe esta homenagem prestada pela Câmara Municipal de Iguatu, através de uma indicação do vereador Mário Rodrigues?

Dr. Odorico Monteiro: Recebo esta homenagem com muita emoção, muita gratidão, muita generosidade por parte da Câmara de Vereadores e do meu colega de Ruy Barbosa, vereador Mário Rodrigues. É uma satisfação muito grande. Isso para mim são coisas na vida que não tem preço. Faz com que a gente renove essa energia de estar vivendo. É o carinho, gratidão de amigos de pessoas. A generosidade de pessoas como os vereadores de Iguatu. Como meus irmãos e irmãs iguatuenses que tive uma convivência fraterna numa cidade que me acolheu. Num momento muito especial da minha vida. Eu vim para Iguatu recém órfão de pai. Perdi meu pai em novembro de 1969 e em janeiro de 1970. Minha mãe saiu de Arneiroz com seis filhos pequenos. Era o mais velho. E viemos para Iguatu trazido pelo irmão dela. Meu tio Silvestre. Iguatu nos acolheu muito bem. Conseguimos com muita dificuldade estudar, e tivemos essa convivência muito fraterna com todos os amigos e amigas de Iguatu. Essa homenagem para mim é algo de muita emoção. É muito especial. Serei eternamente grato pelo resto da minha vida por essa homenagem.

A Praça: Apesar de não ser iguatuense de naturalidade. O senhor viveu toda sua infância e juventude nesta cidade. Tem algum fato acontecido com o senhor que marcou sua vida? O senhor tem alguma saudade do seu Iguatu da infância?

Dr. Odorico Monteiro: Muitas, para você ter uma idéia. Tenho muita saudade de Iguatu. Não só da infância, mas  da adolescência. E todo dia em algum momento do meu dia. A imagem da minha vida ai de Iguatu passa pela minha mente. Sejam momentos vividos entre a rua Dário Rabelo e rio Jaguaribe. Tomando banho no Jaguaribe, jogando bola na rua Dário Rabelo. Seja brincadeiras que vivenciamos ali na Vila da Cidao. As minhas atividades como  cobrador, como vendedor da Loja Martins Chaves. Seja como menor estagiário do Banco do Brasil. Como aluno do Ruy Barbosa, ou como militante que fui da Unidus. Todo o dia a imagem de Iguatu está presente na minha memória. É uma coisa que está no meu cotidiano. Então tenho saudades do Iguatu sim, dos amigos. Eu queria ter mais tempo para conversar com meus amigos de Iguatu. Para visitar Iguatu mais vezes. Entao isso para mim é algo que inclusive me deixa um pouco triste. Quando gostaria de ter mais tempo para reviver mais Iguatu. Vários fatos marcaram minha vida. Acho que fatos relacionados ao comercio, quando convivi com meus tios quando aprendi muito. Ao Banco do Brasil. Teve algo que marcou muito para mim assim, foi a minha atividade estudantil no Ruy Barbosa. E uma das coisas muito forte por exemplo a ação que nos tivemos com os grupos folclóricos do Ruy Barbosa, entre eles o Bumba Meu Boi. Então evidentemente que meus contemporraneos vão saber do que estou falando. Outra coisa marcante foi quando morava em Iguatu quando nós fizemos a viagem de final de ano, com o Dr. Edson a Salvador. Então foram passagens de Iguatu que são muito fortes no meu cotidiano. Um dos fatos que marcou minha vida foi ter conhecido a Ivana, minha esposa numa das atividades da Unidus na Vila Centenário. Numa tarde agosto de 1983. É um fato marcante.

A Praça: E como o senhor expressa esse sentimento por Iguatu?

Dr. Odorico Monteiro: posse expressar esse sentimento através do carinho que eu tenho pelas pessoas. Na realidade acho que sou até devedor o que os iguatuenses fizeram por mim. É um sentimento de divida no sentido de que fui muito bem acolhido na cidade. tive oportunidades importantes. Só foi possível eu ir estudar em Fortaleza, e fazer o meu cursinho lá porque economizei dinheiro quando era funcionário do Banco do Brasil. Tenho sentimento de Iguatu de divida. Sou devedor, Iguatu fez mais por mim do ponto de vista que representou na minha vida do que eu já fiz para Iguatu.

A Praça: Sobre sua experiência como gestor de saúde em várias cidades do Estado do Ceará e atual gestor em Fortaleza. Tem alguma experiência que o senhor gostaria de destacar?

Dr. Odorico Monteiro: São quatro experiências diferentes. Eu sempre digo que tanto a experiência de Icapuí, como a de Quixadá, de Sobral e de Fortaleza. Nenhuma é melhor do que a outra. São experiências diferentes.  Em Icapuí na administração de Dedé Teixeira, tive a experiência de como militante do Movimento Estudantil eu tive a oportunidade de participar da construção de um dos primeiros sistemas municipais de saúde do Ceará. Em Icapuí foi o primeiro fundo municipal de saúde, foi um dos primeiros Conselhos Municipais de saúde. Então a gente concedeu no município pequeno a municipalização ideal. Em Quixadá, na gestão de Ilario Marques foi muito marcante a questão do Programa Saúde da Familia. O Programa Saúde da Familia que hoje é um programa nacional ele nasce em Quixadá. As primeiras equipes plantadas no país foram em Quixadá a partir do projeto que nós desenvolvemos em Quixadá, que o ministro na época Henrique Santillo digamos apoiou.Inclusive tinha-se uma discussão nacional com  médico de família E a partir  da experiência em Quixadá o que se configurou foi o Saúde da Família. Sobral além de ter sido uma experiência de oito anos. Vivendo ai ao lado governador Cid Gomes. Eu acho que aprendi muito do ponto de vista da gestão. Em minha passagem por Sobral são coisas marcantes primeiro a gestão de um sistema completo. Isso para mim foi uma coisa importante. Depois a  conciliação com a vida acadêmica. Em Sobral eu tive a oportunidade de ser secretário de saúde e professor da Faculdade de Medicina. Então nós implantamos a experiência de um sistema municipal de saúde-escola. A experiência de Sobral tem um vinculo muito importante que foi a incorporação da atividade acadêmica. Em Fortaleza, agora com a prefeita Luiziane Lins está sendo um grande desafio de ser secretário de saúde de uma mega cidade. só para se ter uma idéia da responsabilidade a macro região de Fortaleza tem que atender 5 milhões e 600 mil habitantes. A gente tem hoje coisas importantes como ampliação do saúde da família. Hoje nós temos 300 equipes em Fortaleza. Saímos de 3 Caps (Centro Atenção Psicossocial) para 14. E estamos estruturando uma coisa também nova no Brasil e tem sido referencia nos rendeu ano passado a visita da diretora da Organização Mundial da Saúde,  a doutora Margaret  Chan que visitou Fortaleza para conhecer o sistema municipal de saúde. São quatro experiências ao longo de 20 anos cada uma com uma característica vivida de forma muito intensa em cada momento desses.

A Praça: Observamos, nos últimos anos, um grande avanço nos serviços de prevenção, devido à criação de novos PSF´s, aumento do contingente de profissionais etc. Porém, os serviços de alta complexidade não têm acompanhado esse avanço, pois várias vezes nos confrontamos com a triste realidade dos usuários do SUS que necessitam de um exame complementar como tomografia, ultra-som ou colonoscopia e têm de ficar aguardando cerca de 3 meses para a realização do exame, comprometendo gravemente o seu estado de saúde devido à essa espera. Existe alguma perspectiva de mudança?

Dr. Odorico Monteiro: Essa realidade aqui não é só uma realidade do Brasil. É uma realidade mundial. Em todos os países do mundo que nós organizamos o sistema de saúde e herarquizamos, e que aumentou a cobertura na atenção primária de saúde. Se construiu hoje verdadeiros desafios de acesso da população a nível secundário e terciário. Então isso é um problema mundial. Isso está sendo mais intenso no Brasil porque nós ampliamos muito a rede de atenção base, isso é uma coisa muito boa. E fizemos pouco investimento na média e alta complexidade. Não tenho dúvida no caso, a agenda colocada pelo governador Cid Gomes. Ela coloca essa possibilidade de resolver esse problema. Primeiro construindo dois hospitais importantes um na Região Norte em Sobral e outro em Juazeiro, e a construção de vinte e um Centro de Especialidade Médica no inteiro do Estado fortalecendo as resolutividade da média complexidade. Uma outra coisa que  a gente tem que fortalecer são os hospitais estratégicos. Como por exemplo o Hospital Regional de Iguatu. Aumentar a capacidade resolutiva, aumentar a incorporação tecnológica, para que a população possa ter acesso a tecnologia nesses locais onde mora. E nesse sentido é importante a descentralização da questão da formação, ou seja. Eu sempre defendi o que estou chamando de Sistema Estadual Saúde –escola, para que se possa criar estrutura de formação de residência médica. Que se possa aumentar a capacidade resolutiva do profissional do interior. Muitas vezes em muita cidade pode se colocar determinado equipamento, mas não tem esses profissionais para operar esses equipamentos. E também há a necessidade de investimentos em recursos humanos.

A Praça: A campanha da Fraternidade contesta autoridades da saúde que defendem o aborto, pílulas do dia seguinte e camisinha.  Algum desconforto para discutir o tema?

Dr. Odorico Monteiro: Entendo que é importante a gente entender que nós temos alguns problemas no Brasil que são problemas de saude pública. A violência hoje é um grande problema de saúde pública.e algumas questões que estão ligadas a questão de saúde pública a gente tem que discutir isso como política pública. Então o que acho que nesse momento é construir um dialogo com a igreja no sentido que a gente possa discutir alguns problemas de saúde pública no Brasil numa dimensão de saúde pública. Acho que esse é um problema também mundial. Esse é um tema que também esta presente em vários países do mundo. Países que a igreja tem influencia no debate. Sou católico, freqüento regularmente a missa, mas entendo que a gente tem que fazer esse debate. A igreja tem que fazer o seus papel junto a seus fieis e nós como autoridade em saúde pública temos que defender a importância de políticas públicas para salvar vidas. As questões que foram colocadas são do ponto de vista de saúde pública. E o Brasil tem feito isso muito bem. A sociedade brasileira tem entendido e não é atoa que o Brasil é referencia mundial na questão do controle da Aids, porque a sociedade brasileira entendeu a importância disso. E esse é um grande desafio conciliar a igreja que tem um papel importante na sociedade, mas nós que trabalhamos com saúde pública temos o papel importante também na discussão desse  sistema.

A Praça: O senhor gostaria de fazer uma breve analise em relação à saúde pública no Ceará?

Dr. Odorico Monteiro: O Ceará por várias razões é um os Estados do Brasil que tem se destacado nos últimos vinte anos. Tem se destacado de forma importante. A gente já começou certo dentro do processo de municipalização e ai tem muito haver com Iguatu. Porque um dos primeiros secretários de saúde do Ceará que começou  o processo de municipalização da saúde foi Carlile Lavor. Carlile como secretário de saúde ele teve um papel importante de começar o processo de municipalização implantando os agentes comuitários de saúde, extensão de uma rede básica é importante. Nos últimos vinte anos nós tivemos uma sucessão de secretários no Ceará que tivemos uma continuidade. Uma coisa importante no Ceará que  tem caracterizado é que a saúde tem tido uma cultura supra-partidária. Ao longo dos últimos vinte anos tem tido política com continuidade. Então a municipalização no Ceará teve inicio antes da criação da Lei Orgânica da Saúde, que de certa forma foi a lei que organizou o processo de municipalização. E começamos a municipalizar ainda no SUS (Sistema Único de Saúde). Ao longo desses anos temos construído um processo muito interessante. Temos fortalecido o Programa Saúde da Familia, fortalecemos o processo de municipalização, transformamos os agente de saúde numa política publica de estado. E construímos uma mega rede de sistemas municipais de saúde. Temos agora grandes desafios e acho que agora. E esses desafios já começam a serem colocados pelo governador Cid Gomes, com perspectivas de solução. Uma delas  é construção de hospitais no interior do Estado para que a gente possa descentralizar a urgência e emergência e melhorar  a capacidade de média e alta complexidade. A outra questão colocada para os próximos anos é a questão da construção de Centro de Especialidades Medicas, Odontológicas  que agente possa aumentar a resolutividade das micro e macro regiões do Estado do Ceará. Então nós temos que ampliar esse resolutividade para que a gente possa garantir que o cidadão que tem acesso ao Programa Saúde da Família possa ter acesso a integralidade da ação. O nosso próximo desafio são construir rede inter-federativas de saúde funcionando na atenção primária, na atenção ambulatorial especializada, na atenção hospitalar, na atenção de urgência e emergência e na saúde mental garantido a produção da integralidade das ações do serviço de saúde. Vejo alguns desafios importantes que é a melhoria de alguns indicadores. Primeiro colocaria a mortalidade materna. Acho que a nossa mortalidade materna hoje não é coerente com o avanço que nós tivemos. É um processo de qualificação primária e aumento a resolutividade na média e alta complexidade.

A Praça: E em Iguatu gostaria de opinar sobre como a saúde Iguatu pode melhorar?

Dr. Odorico Monteiro: Não moro em Iguatu, então qualquer avaliação minha pode ser precipitada. O que eu sinto é que Iguatu tem sido uma cidade que tem se destacado assim como o Estado do Ceará de ter avançado na saúde, ou seja independente da questão partidária a gente tem tido uma progressiva melhora no sistema de saúde. Iguatu tem se considerado referência em várias áreas. Como por exemplo o primeiro Caps do Ceará, nasceu em Iguatu. A própria construção do Hospital Regional foi construída nessa perspectiva as atividades. Iguatu ela vem se destacando ao longo desses vinte anos. Não estou fazendo analise de um governo ou outro de Iguatu estou vendo a cidade como um todo. E eu não tenho dúvida que Iguatu hoje também deve enfrentar os mesmo problemas que eu por exemplo enfrento em Fortaleza mudando só a escala. Então hoje (quinta-feira,14) estou Brasília e tivemos uma reunião no Ministério da Saúde e o que tenho colocado sempre é que pelo menos no país um conjunto de municípios pólos que precisam ter uma ação maior do Ministério da Saúde, dos Estados e dos próprios municípios que estou chamando de rede inter-federativa que possa digamos melhorar a atenção nesses município porque são municípios pólo que sofrem com toda uma demanda infinitiva e com recurso finitos.e nós temos que ter uma relação sunidaria na gestão dos municípios pólos macro e micro regionais no sistema único de saúde.

A Praça: Qual a sua opinião sobre o processo político eleitoral por que passa Iguatu? O senhor acha que é possível avançar?

Dr. Odorico Monteiro: Estou atarefado com os problemas de Fortaleza. Eu não tenho acompanhado a política de Iguatu de perto.e prefiro que essa opinião seja dada pelas pessoas que estão vivendo o cotidiano da política de Iguatu. Posso dizer que tenho uma relação de amigos supra-partidários e dessa relação supra-partidaria que eu tenho que trabalhar como cidadão iguatuense no sentindo mais amplo. O meu papel é muito mais de acompanhar e torcer para que o melhor para Iguatu aconteça.

A Praça: Pela sua exposição como pessoa pública. O senhor tem alguma intenção de se candidatar a algum cargo eletivo nas próximas ou na outra eleição?

Dr. Odorico Monteiro: Não, não está colocado no meu horizonte nenhuma perspectiva de candidatura eleitoral. Evidentemente que como sou uma pessoa pública isso pode ser pautado em algum momento. Ao longo desses vinte anos além de ter sido secretário de saúde eu fiz toda uma carreira acadêmica. Eu fui secretário de Icapuí, fiz a residência, secretário de saúde de Quixadá, fiz o mestrado, de Sobral, fiz o meu doutorado e hoje estou investindo muito na minha vida de pesquisador, de professor universitário. Estou orientando vários alunos no mestrado na UFC. Hoje teria muito mais disposição para aprofundar minha carreira técnica, como professor, como pesquisador e trabalhar na política apoiando as políticas públicas do Partido dos Trabalhadores, apoiando digamos a possibilidade de onde eu puder contribuir. Não tem ai em meu horizonte a disputa de um cargo eletivo.

A Praça: Agradecemos sua disponibilidade e fique a vontade para seus agradecimentos finais.

Dr. Odorico Monteiro: Quero agradecer ao Jornal A Praça, pela entrevista, agradecer mais uma vez ao meus irmãos e irmãs iguatuenses pelo carinho.por esse momento que é inesquecível na minha vida por ser um momento de muita emoção, de agradecimento, de gratidão. E espero um dia poder retribuir a todo esse carinho que tenho recebido dos meus irmãos e irmãs iguatuenses.

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