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Enchentes deixam rastro de destruição e morte no Centro-Sul e Vale do Salgado

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Foto:J.Guedes
Cidade de Jucás margeada pelo rio Jaguaribe que recebeu grande volume d'água no seu leito
Com as chuvas caídas nas últimas semanas no Centro-Sul e Vale do Salgado os rios Salgado e Jaguaribe, que cortam essas duas regiões, receberam grandes volumes d’água causando destruição, morte e deixando dezenas de famílias desabrigadas. As enchentes do rio Salgado, com maior volume de águas registrado entre os dias 23 e 27 de março, deixaram um rastro de desespero para centenas de famílias e destruição em estradas, casas, plantações em áreas rurais, e cidades do Cariri, Aurora, Icó, Caririaçu e Lavras da Mangabeira, na Região do Vale do Salgado. Na quarta-feira, 26 de março, o rio Salgado subiu seis metros acima do nível normal. Desabrigou cerca de 600 famílias, quase 5 mil pessoas que residem na cidade e regiões da sede rural. As famílias foram levadas para prédios públicos e casas de parentes. Foi a maior enchente dos últimos 80 anos. A cadeia pública de Lavras ficou com um metro d’água. Cerca de 12 detentos tiveram que ser transferidos para cadeias de outros municípios.

De acordo com Pedro Roque, técnico da Defesa Civil de Lavras, 12 imóveis foram destruídos pelas águas e cerca de 200 prédios ficaram comprometidos. O número de desalojados corresponde a um número acima de 10% da população do município que é de aproximadamente 28 mil habitantes. Os prédios da cadeia pública, prefeitura e câmara municipal ficaram totalmente inundados. Muitas escolas tiveram que suspender as aulas para abrigar as famílias atingidas. A Polícia Rodoviária Federal teve que interditar o acesso de veículos pela ponte sobre o rio Salgado na BR-030, principal acesso ao centro de Lavras da Mangabeira, depois que as águas banharam a pista. Havia o risco de desmoronamento por causa do peso e da força das águas.

Na zona rural do município, de acordo com a Defesa Civil local, houve perdas de 100% de toda produção agrícola. Nas áreas que ficam às margens do rio Salgado muitos rurícolas e suas famílias foram resgatados por equipes do Corpo de Bombeiros de Iguatu e da CIOPAER, usando helicópteros da Polícia Militar. As áreas mais afetadas foram nos distritos de Iborepi, Arrojado e Ouro Branco, regiões que ficaram totalmente ilhadas. Em algumas dessas comunidades os moradores tiveram que se abrigar em cima das árvores para não serem levados pela correnteza. Famílias inteiras foram resgatadas das áreas inundadas pelos soldados do Corpo de Bombeiros e da Polícia Militar, usando barcos e dois helicópteros, da CIOPAER e do Exército. Em comunidades onde as famílias perderam tudo não havia comida, água potável nem remédios. Numa fazenda onde uma família inteira foi resgatada de helicóptero por uma das equipes de socorro as pessoas estavam comendo mamão verde com sal para sobreviver.

O governador do Estado, Cid Ferreira Gomes, sobrevoou as cidades mais atingidas, ainda na quarta-feira, 26. Cid só conseguiu aterrissar em Icó e Lavras. Em Aurora as condições do tempo não permitiram aterrissagem. Em terra firme o governador ouviu relatos de moradores, conversou com famílias afetadas e garantiu o empenho do governo no sentido de prestar socorro aos moradores, inclusive na recuperação de casas que foram destruídas. O governador estava acompanhado de uma equipe da Defesa Civil do Estado, que já fazia os primeiros levantamentos dos prejuízos causados pelo fenômeno. Um dia após a visita, o governo do Estado anunciou a liberação de recursos da ordem de R$ 4 milhões de reais, através do Ministério da Integração Nacional, para atender as necessidades mais urgentes das famílias.

Quando as águas começaram a baixar, uma preocupação das autoridades foi com epidemias de dengue, gripe e outras doenças como a leptospirose. Médicos, enfermeiros e assistentes sociais trabalharam em regime de plantão para atender as ocorrências. A prefeita Dena Oliveira montou um gabinete de emergência em sua própria casa para coordenar as ações em socorro às vítimas das enchentes.

Em pelo menos outras 6 cidades da Região do Cariri os estragos causados pelas chuvas e as enchentes do rio Salgado deixaram também um grande rastro de destruição. Lavouras inteiras foram arrasadas, pontes e estradas destruídas e muitos moradores tiveram que abandonar suas casas. Na maioria dos municípios os prefeitos declararam ‘estado de calamidade pública’.

Em Icó

No município de Icó, a enchente do rio Salgado deixou também muita destruição, desabrigados e muitos prejuízos na lavoura. Uma das áreas mais atingidas na cidade foi o conjunto habitacional Pedrinhas, localizado às margens do rio, entre a cidade e o perímetro Irrigado Icó-Lima Campos. Além do bairro Pedrinhas, dezenas de imóveis, a maioria residências que ficam em outras áreas da cidade nas imediações da margem do rio também foram atingidas. Algumas famílias atingidas ainda conseguiram retirar móveis e utensílios domésticos. Outras só conseguiram levar roupas e alguns objetos pessoais. Foram utilizados caminhões, carroças e camionetas de particulares e cedidos pela prefeitura. O mecânico Moacir Jorge dos Santos, 43, disse que não teve tempo de salvar nada porque as águas chegaram muito rápido.

Muitos também são os prejuízos contabilizados nas lavouras de arroz, banana, milho e feijão. No início da manhã da segunda-feira, 24, o nível do Salgado subia em média 40cm por hora. Além da agrovila Pedrinhas, a cheia atingiu os bairros DNER e parte da Rua Senhor do Bonfim, na margem direita do rio. A Coordenadoria de Defesa Civil contabilizou pelo menos 20 casas atingidas no município. As famílias desabrigadas foram transferidas para escolas municipais. As aulas foram suspensas.

A prefeitura de Icó iniciou no mesmo dia a distribuição de donativos, colchões, alimentos, remédios e vacinas para as famílias atingidas. O prefeito Jaime Júnior, que também acompanhou as operações de perto, disse que o município já havia decretado ‘estado de emergência’.

Choveu em três meses acima da média anual

Em muitas regiões do Ceará choveu em janeiro fevereiro e março acima da média anual que é de 750 mm. Nas cidades do Cariri, de acordo com dados da Funceme-Fundação Cearense de Meteorologia, choveu em média 900 mm até o final do mês de março. Essa quantidade de chuvas normalmente é esperada até o final da temporada de inverno que vai até maio/junho. A Funceme prevê chuvas fortes nessas regiões também neste mês de abril, que é considerado pelos meteorologistas como mês chuvoso.

No Centro-Sul do Estado, as chuvas também atingiram a marca histórica de 900 mm em média até o final de março. Em Iguatu, dados coletados em pluviômetros da Ematerce, no INMET-Instituto Nacional de Metereologia e no aeroporto Tomé da Frota revelam que a média de chuvas nos três primeiros meses supera a média anual. Em março, o município de Quixelô registrou uma chuva de 231 mm, a maior precipitação pluviométrica do Estado, naquela data. A precipitação causou sérios danos na lavoura e chegou a destruir estradas deixando algumas comunidades isoladas.

O município de Acopiara registrou 373 mm de chuvas em janeiro, fevereiro e março. Os dados correspondem à metade da média anual que é de 750 mm também. Moradores estão otimistas, principalmente com o acúmulo de água da barragem Tibúrcio Soares que já ultrapassou a marca da antiga parede, o que já é um sinal positivo de que o reservatório poderá transbordar, caso continue recebendo água no leito do riacho Quincoê.

Cinco pessoas já morreram nas enchentes

Com as primeiras cheias registradas no rio Jaguaribe veio a preocupação também com as inundações que poderão atingir cidades como Saboeiro, Arneiroz, Jucás, Cariús e Iguatu, que estão localizadas as suas margens. As chuvas caídas nas nascentes do Jaguaribe fizeram aumentar o volume de água, mas o rio não saiu do leito.

Em Jucás e Iguatu, a cheia do Jaguaribe tem atraído muitos curiosos. Cinco pessoas já morreram afogadas no rio Jaguaribe e em açudes da Região. Em Iguatu, na tarde da sexta-feira, 21 de março, Francisco Maicon Pereira, 18, morreu afogado após pular da ponte Demócrito Rocha. Ele chocou a cabeça com outro rapaz, Francisco Diego Mariano Gomes, 19, que havia pulado em sua frente. Mariano conseguiu ser resgatado por populares e está internado com traumatismo craniano em Barbalha. Francisco Maicon teve seu corpo encontrado três dias depois. Ele foi sepultado no município de origem, Cariús, na manhã do domingo, 23. Outros quatro homens também foram vítimas das enchentes. Um deles, o agricultor Antônio Wilton da Silva Aguiar, 18, que havia desaparecido no dia 30 de março na localidade de Bebedouro, Jucás. O corpo de foi encontrado nas águas do rio Jaguaribe em Iguatu, na terça 01/04. Francisco Juvêncio da Silva filho, 40, se afogou na ‘Barragem dos Padres’, rio Jaguaribe, em Jucás. O corpo dele foi resgatado pelo Corpo de Bombeiros de Iguatu na localidade de Quixoá dos Dinos, Região do Distrito de Barro Alto, zona rural de Iguatu. Juvênio era natural de Quixelô e residia em Iguatu. No município de Várzea Alegre no dia 28/03 Ivonaldo Mendes de Menezes, 29 morreu afogado no açude Olho D’água, na comunidade de Piripiri. O corpo também foi encontrado pelo Corpo de Bombeiros de Iguatu. Em Quixelô, Jose Silva Gomes, 67, morreu afogado no sítio Boa Vista, Região do Jequi, no dia 23/03. O corpo da vítima também foi encontrado pelo Corpo de Bombeiros de Iguatu.

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