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Cristo ressuscitou

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O anúncio da descoberta do suposto túmulo de Jesus não só é rejeitado pela arqueologia, mas também pela história e pela fé cristã.

No contexto das celebrações cristãs da Páscoa de Jesus, somos movidos pela urgência de considerar a morte e ressurreição de Jesus e focalizar as nossas vidas e a realidade do mundo atual para tentar identificar os frutos da obra redentora de Cristo.

A Páscoa é a celebração da passagem... Cristo passa deste mundo para o Pai, e passa através do sacrifício de sua paixão e morte. Deus Pai ressuscita seu Filho e dá a palavra final que supera toda a morte e toda a crueldade dos pecados humanos.

Em meio ao turbilhão do noticiário sensacionalista que insiste em dar credibilidade absoluta a informações distorcidas de que foram encontrados os restos mortais de Jesus, numa clara tentativa de desmentir o fato da ressurreição do Senhor, vale fazermos uma reflexão profunda sobre a dimensão meta-histórica do evento central da nossa Fé cristã.

O anúncio da descoberta do suposto túmulo de Jesus não só é rejeitado pela arqueologia, mas também pela história.

O dado, de fato, é que se fala de túmulos antigos, alguns do século I, descobertos na região de Talpiot, a inícios dos anos oitenta, nos quais estão gravados alguns nomes como os de Jesus, Maria, José, Mateus... Este é o dado de fato.

Mas túmulos como esses existem em grande número no território da Terra Santa. Portanto, não há nada novo nesta revelação. O fato de surgirem nomes como Jesus, Maria ou Judas nada garante. Estes nomes eram muito freqüentes em Israel. De entre as 900 covas encontradas num raio de quatro quilômetros na cidade velha de Jerusalém, o nome de Jesus (ou Yeshua) aparece 71 vezes! Alguém vai dizer que se referem todos a Jesus Cristo?
Não admira, por isso, que o arqueólogo israelita Dr. Amos Kloner já tenha dito que este túmulo é «de uma família judaica próspera». Segundo ele, «não há provas que respaldem as afirmações de que ali foi enterrado Jesus».

Tratar-se-á de uma sepultura judaica para enterros. «Quanto aos nomes que aparecem nela, não passa de uma coincidência. Não temos uma prova científica de que seja o túmulo de Jesus e dos membros da Sua família», assegura o arqueólogo.

«Por que, então, tanto barulho?», pergunta-se, e responde: «Porque Hollywood quis lançá-lo. Dado o êxito de operações como ‘O Código da Vinci’, tentou-se provocar outro êxito análogo, tratando da autêntica questão que entra em jogo, ou seja, se Jesus verdadeiramente ressuscitou».

A RESSUREIÇÃO É INVENÇÃO DOS DISCÍPULOS?
A tese lançada é que, se Jesus foi sepultado lá com sua família, então a ressurreição não seria mais que uma invenção de seus discípulos.

Pois bem, deixando de lado a inconsistência da prova arqueológica, que foi totalmente rejeitada por arqueólogos israelenses, o dado de fato da ressurreição de Jesus é documentado rigorosamente no Novo Testamento pelas cinco narrações das aparições: quatro dos Evangelhos e a de São Paulo.

Na Sexta-Feira Santa, os discípulos abandonaram Jesus, por medo de todos e das perseguições. Progressivamente, e até com resistências iniciais, a partir do domingo de Páscoa, se converteram em testemunhas d’Ele, ressuscitado, com um impulso e uma valentia tais que levaram esse anúncio a todos os confins da terra, até dar a vida por ele.

O que aconteceu? Os Evangelhos nos dão a entender. Deu-se um encontro que mudou suas vidas. E este encontro, narrado nas passagens das aparições, caracteriza-se por um dado fundamental: a iniciativa não é dos discípulos, mas dEle, que está vivo, como diz o livro dos Atos dos Apóstolos (1, 3). Isso significa que não é algo que acontece nos discípulos, mas fora deles, na História e que atinge a todos. A partir deste fato, ao longo da história, Cristo foi anunciado com um impulso que envolveu gênios do pensamento, não visionários, desde Agostinho de Hipona e Tomás de Aquino, até Teresa de Calcutá, por exemplo.

Em que sentido a ressureição de Jesus é um fato histórico?

Tudo depende do que se entende por história e histórico. Jesus foi visto morrendo, não ressuscitando. A morte faz parte do mundo da nossa experiência, mas não a ressurreição. Não houve constatação direta do ato de ressuscitar (os apóstolos não pensaram de “inventar” isso!). Acontece que o modo de ser glorioso de Jesus não pode ser o resultado das leis deste mundo nem se encaixa nelas como seu ambiente próprio: Cristo desaparece “deste mundo”. A ressurreição fica à margem da história comum intramundana, mas por atuar poderosamente na história, por isso é supra-histórica; nela se entrecruzam fé e acontecimento.

O mais importante é reconhecer que a ressurreição foi um fato real para os discípulos, um fato que se deu em seu próprio mundo, que transformou suas vidas e os reuniu como Igreja. Não foi uma experiência religiosa interior, mas um acontecimento externo, público; não mental, imaginado, deduzido, abstrato ou forjado. O acontecimento se impôs de fora para dentro, como uma evidência que tiveram que aceitar vencendo todas as resistências e dúvidas. Se a ressurreição perde em historicidade, por não ter sido passível de constatação direta e por não pertencer aos fenômenos deste mundo, ela ganha por ser o mais real dos fatos, pois foi capaz de transformar a vida dos discípulos, dar-lhes um sentido maior e influenciar a história da humanidade até hoje.

Há quem diga que a ressurreição em si mesma é meta-histórica, sendo históricas as suas pegadas, vestígios ou pistas: uma negativa, o sepulcro vazio; outra positiva, as aparições.

Em relação à vida de Jesus, a ressurreição deu a luz apropriada para sua lembrança e compreensão, deu o conhecimento dos fatos e ditos de Jesus pela descoberta de sua real identidade. Foi uma luz que iluminou o que já estava presente sem ser discernido. Toda a vida de Jesus foi assim relida e testemunhada a partir do seu momento culminante. Jamais poderia ter sido mera biografia ou reportagem, pois a ressurreição transcende a história que ilumina.

A morte de Jesus, como redenção do pecado e morte do velho homem, não traria nenhum proveito para a humanidade se não fosse seguida da graça da vida nova. Como dom que introduz uma vida nova na existência humana, a ressurreição constitui o fundamento para a esperança certa a respeito do destino feliz da humanidade. Essa certeza é condividida por quem acolhe em sua vida a força do Cristo ressuscitado (1 Co 15, 12-19; Ro 8, 18-25).

A ressurreição é a confirmação da verdade das reivindicações de Jesus; é a resposta do Pai que assume a causa do Filho como sua, que aceita como agradável seu sacrifício. Nesse sentido os evangelistas apresentam a ressurreição como um sinal: o sinal de Jonas (Mt 12, 39s; Lc 11, 29s), o sinal do Templo (Jo 2, 18-22), o sinal do Cristo levantado (Jo 8, 28: “Quando levantardes o Filho do Homem sabereis que Eu Sou”).

Para o evangelista João a Páscoa é passagem (Jo 13,1): em relação ao que deixa para trás é uma vitória; em relação ao que assume é um novo início, obra do Espírito Santo.

Feliz Páscoa!

Pe. João Batista Moreira Gonçalves
Pároco da Catedral de São José e Reitor do Seminário Maior de Iguatu

Comentários  

 
#1 humberto 24-04-2011 15:50
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