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O encontro

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“ Mas restou o prazer, gravado no ar...” Drummond

No carro, aumento o volume do som. Música é massagem, se não for moderna, o que quer dizer barulho. O ardil foi bem sucedido: consegui sair cedo do trabalho. Uma tia teve um enfarto; boa desculpa; velha, mas dá certo sempre.

Vidros fechados; fora do mundo. Falta ainda meia hora. As mãos já estão suadas; ansiedade. Preciso chegar primeiro, assim tomo alguma coisa e me acalmo. Esse frio na espinha vale a vida, palavra como vale ! Sem esse frisson, sem essa comichão na alma seríamos apenas burocráticas sombras caminhando para a morte.

Fora dos limites da cidade. Não falta muito. Milton, no Lost Paradise, situa o paraíso tão longe do homem. O meu é semanal e está tão perto. É à tarde, pra não despertar suspeitas. “Antes à tarde do que nunca”, lembro do engraçado anúncio.

Chegamos. Enfim. A chave tem o número sete, sempre. Superstição. Ela virá em outro carro. Por que vem me encontrar ? Por que age assim ?  O que faço aqui ? Sempre tenho estes pruridos morais quando chego, antes de um banho e de um uísque duplo. Ela não deve tardar.

Chegará preocupada, jogando a bolsa para um lado e dando-me um beijo formal. O cabelo preso, o vestido bem composto. Como pode parecer tão séria ?

Sem ao menos sentar-se, olhará no espelho e dirá, desafiadora:

- O que disse a ela hoje ?

- De novo essa pergunta idiota. Refutarei grosseiramente.

Talvez chore. Acontece algumas vezes; talvez diga ofensas, queixumes, cobranças sempre as mesmas. Fico sempre calado. Olho sua beleza enquanto ela briga comigo; olho-a qual um garoto que roubou uma fruta ou um doce e vai comê-lo escondido.

- Estou falando com você; não está me ouvindo ?

É preciso esperar que uma mulher se cale. Demora, mas acaba acontecendo. Ademais, ela é linda.

- Vou embora; não volto aqui nunca mais. Dirá isso enxugando as lágrimas. Como podem ser tão fáceis essas lágrimas ?

Continuo calado, ainda a olhá-la. Meu silêncio é uma permissão para que se vá, mas sei que não irá.

Até os vulcões se cansam. Ela vai parar. Começa soltando o cabelo. Negro, cairá sobre os ombros macios como um pedido de perdão por tanta besteira que disse. Depois, pacificada, sentará ao meu lado na cama, pondo os brincos sobre a mesa. O colo arfando por sobre o transparente tecido. A leve maquiagem desapareceu com o pranto e o suave baton agora se mistura com a saliva que umedece os lábios.

Olharemo-nos ainda sem qualquer palavra. Onde foi parar a louca das brigas ? Só uma menina agora. O olhar continua fixo, mútuo, revelador. Sabendo que não é preciso mais nada, direi: “vem, vem aqui !”

Ela virá. Ela se entregará como sempre. Como se fosse uma águia num vôo cego; uma pedra jogada num abismo sem fundo, um suspiro de gozo atravessando a noite.

EVERTON ALENCAR
Professor de Latim da Universidade Estadual do Ceará (FECLI-UECE)
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