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A noite na ponte

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Parmi tous lês instants tu touchais au suprême... Paul Valéry

Nesta semana, por acaso, avistei na rua uma antiga namorada. Estava enorme como a popa de um navio e carregava pela mão o fatídico ônus da natureza: uma fila de pirralhos barulhentos. Crônos fora cruel com ela; tinha um ar atarefado, vestida com desleixo. Era um decalque do passado.

Afastei-me. Não tive coragem nem desejo de falar-lhe. Entrei no carro e fugi. Ainda bem, pensei, não estamos acorrentados ao presente. O passado é nosso bálsamo, como diria Proust. Um dia fora bela, vivaz, aquela respeitável senhora. Na verdade está errado o clichê “recordar é viver”. Recordar é saber que não se vive mais, que a fonte agora é pedra, que o riso não mais ecoará. Pensamentos amargos. Melhor afasta-los.

Quero lembrar dela como antes, como naquela noite. Não a noite toda, ou o relacionamento, que fora curto e nem me vinham os detalhes. Falo de uma coisa que fizemos, um único lance, memorável. Voltávamos de uma viagem, era muito depois das dez. Conversávamos radiantes, naquela euforia que mistura tolices com coisas sérias, risos com beijos. Eu dirigia, como agora; só ela ao meu lado. A estrada de terra, a noite muito escura. Fazíamos planos, trocávamos promessas. Nenhum dos dois cumpriu nada. Eu porque era casado. Ela porque zangou-se quando descobriu e terminou tudo. Mas deixemos a realidade, vamos ao que interessa. Tive uma idéia louca: parei o carro. As luzes ficaram acesas, somente elas, num único tapete iluminado à frente do automóvel. Tudo o mais completamente escuro. O vento frio, muitas estrelas, um cheiro de mato molhado enchendo o lugar.

- “O que foi? O que houve?” Perguntou-me, entre surpresa e amedrontada.

Fiquei um pouco em silêncio. Depois, aumentando o volume do som, saí do carro, abri levemente a porta e disse-lhe:

- Por favor, a senhorita gostaria de dançar?

Ela sorriu, claro, sem acreditar. Estávamos no meio do nada, tarde da noite, e eu parara o carro para uma dança. Não posso esquecer que era uma ponte, isto é, eu havia parado sobre uma ponte. Talvez até corresse algum regato; não me lembro. Lembro e lembrarei sempre daquela música: era smoke gets in your eyes. Um cult dos anos sessenta; eterno. Dançamos apenas por alguns minutos, conversando baixinho. Lembro que falei: “você nunca vai esquecer disso.” Ela concordou: “É mesmo!”

Quando chegamos à cidade, durante horas, mesmo depois do sexo, ficamos imersos naquele enleio. Depois o rio retomou seu curso e nós, infelizmente, estávamos em margens diferentes. Durou algum tempo ainda o romance, mas não houve outro momento como aquele. Enquanto eu a tinha nos braços, naquela dança na ponte, recordo que tentei imaginá-la, e também a mim, muitos anos depois. Foi em vão. Mesmo que pudesse ver o futuro não gostaria de vê-la como a vira agora, no presente. É possível que os pirralhos, ou o marido chato a deixem um pouco quieta e ela lembre da noite na ponte? Ah o que fizemos com nossas vidas, onde deixamos as deliciosas loucuras? Pagamos um alto preço para sermos sérios e responsáveis. É; voltaram os pensamentos amargos. Mas sei como acalmá-los. Logo mais será noite, tal qual a noite na ponte, e o velho uísque, cobertor da alma, me trará o passado de volta. Óbvio, ao som de smoke gets in your eyes.

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