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Professor e qualidade de ensino

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O ensino será o que forem os professores. Uma política educacional que se esmerasse na construção dos prédios escolares, que se voltasse para equipamentos sofisticados e que se aprofundasse em inovações curriculares e metodológicas, mas que se esquecesse do professor, estaria fadada ao insucesso. Porque o bom professor faz o bom ensino, apesar de todas as precariedades de meios que vierem a cercar o seu trabalho. Se essa é uma regra para todos os níveis de ensino, valerá muito mais para o ensino fundamental e, dentro dele, para as suas séries iniciais. A obra da educação nessa fase vive das impressões que a presença do mestre causa na criança. Esquece-se a lição, não se esquece a influência marcante do professor. Só com o professor satisfeito e seguro, preparado e afetuoso se formará a criança, porque a educação sempre se fará apesar do ensino, desde que haja um clima de simpatia no relacionamento entre o mestre e o discípulo.

O que se observa hoje, entre nós, é uma incompreensível indiferença em relação ao professor, principalmente os das séries iniciais, por cujas mãos passa a maioria esmagadora dos brasileiros que completam sete anos de idade. Desvalorizado profissionalmente, mal pago e desestimulado pela falta de perspectivas de realização pessoal, vai o mestre-escola perdendo o interesse pelo que faz, em detrimento da obra educacional que lhe está confiada. A isso se pode, sem exagero, chamar de desastre nacional, pois a qualidade de vida das novas gerações dependerá, em grande parte, do sucesso ou do insucesso da primeira experiência de escolaridade – que, na maioria dos casos, poderá ser a única. Coincide ela, em cada criança, com a fase crítica de formação das bases da personalidade e da aquisição da visão inicial do mundo, daí a gravidade de que se reveste a situação.

Por isso, não basta afirmarem políticos e educadores ser o ensino a maior prioridade nacional e entenderem que, ao garantir vagas nas escolas para todas as crianças de 7 a 14 anos, terão cumprido o seu dever. Tão importante quanto assegurar  a existência de vagas é conceder apoio ao professor, que dará efetividade e consistência à democratização de oportunidades educacionais. O primeiro, se bem que não o único, apoio devido é o que diz respeito ao regime de trabalho do professor e, por conseguinte, à sua remuneração. Não são necessárias demonstrações estatísticas para evidenciar um fato notório que ninguém desconhece: dos trabalhadores qualificados deste país, poucos ganharão pior do que o professor, especialmente aquele das séries iniciais de ensino fundamental. A explicação que se dá é sempre a mesma: há professores demais na rede escolar e dinheiro de menos nos orçamentos públicos. Explicação melancólica, já que a ação do professor teria que ser encarada, não como algo que se paga mal, porque há sempre uma permanente limitação de verbas, mas como aquela tarefa para qual não há sucedâneo e que deve ser remunerada à altura de sua importância, ainda que à custa de sacrifícios de outras prioridades. Afinal, qual é o preço do trabalho do professor de primeiras letras? O mesmo preço do destino de um povo, se é que este possa ser estimado em custos financeiros.

Se outros países resolveram o problema e questões tão ou mais intrincadas do que essa têm sido enfrentadas com sucesso pelos brasileiros, porque não buscar uma solução à altura da sua importância? À altura e com a devida urgência, eis que a situação tende a ficar dramática. Pois não só se acentua a evasão de professores dos quadros do ensino, como as novas gerações não mais demonstram interesse pela carreira do magistério e conhecem-se numerosos casos de professores que abandonam a profissão, trocando-a por empregos mais bem remunerados no comércio, nos bancos, nos escritórios. Nada há de absurdo nisso, considerando que há regiões onde o professor ganha menos que o salário mínimo. Foi-se o tempo em que, num estado como São Paulo, o professor primário ganhava tanto quanto o juiz de direito, sendo ótimo partido para as meninas casadoiras ou, quando mulheres, para os rapazes sem profissão definida, nem renda própria.

O baixo rendimento escolar no ensino fundamental, que tanto preocupa os estudiosos do setor, não será corrigido apenas com a remessa do professorado a reuniões, encontros e até cursos de atualização e aperfeiçoamento didático. Esse é um procedimento com o qual se gastam verbas polpudas e não raro se desperdiçam esforços hercúleos para, ao final, obter-se um resultado próximo a nada. Preocupado com a sobrevivência no dia-a-dia, fazendo milagres para manter-se e manter sua família num estilo de vida fronteiriço à miséria, tendo que trabalhar num segundo emprego ou, quando não, dando aulas em vários estabelecimentos de ensino, como se fora máquina, o professor não reúne um mínimo de condições psicológicas para melhorar os padrões didáticos à custa de novos cursos e novos seminários de estudo.

No momento em que o professor for pago convenientemente, voltarão a povoar-se as escolas normais e as faculdades de filosofia, os concursos ao magistério terão mais e melhores candidatos, o nível de ensino, se qualificará e uma gama imensa dos atuais problemas escolares se resolverá  como por um passe de mágica. E o que é mais importante, o futuro da nação estará mais bem assegurado do que esteve no passado e está no presente.

Paulo Nathanael Pereira de Souza é doutor em educação e presidente do Conselho de Administração do Centro de Integração Empresa-Escola - CIEE

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