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Venezuela, Democracia e a Mídia

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Desde que Hugo Rafael Chávez Frías foi eleito presidente da Venezuela em 1998 e começou a apontar novos rumos para o país, a imprensa começou a “pegar em armas” para combater o chefe de Estado que está dando o tom do debate da esquerda no mundo hoje, principalmente na América Latina, área de influência direta dos Estados Unidos, país alvo dos ataques verbais de Chávez.

Ele é chamado de maluco, fanfarrão, verborrágico, populista, golpista e ditador, aliado de outro ditador, Fidel Castro. Assim a imprensa se refere a Chávez, e o leitor tende a tomar isso como verdade, mas alguns números são necessários para que se tenha mais clareza e discernimento quando se quiser fazer uma análise da República Bolivariana da Venezuela. São fatores que a imprensa prefere não divulgar.

Recentemente a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), organismo da ONU sediado no Chile, divulgou relatório sobre os avanços econômicos e sociais na região, onde houve forte queda nas taxas de pobreza e indigência. As causas dessa redução são, segundo o relatório, o bom desempenho econômico em toda a América Latina, com destaque para a República Dominicana, que cresceu 9,1% em 2006, e a República Bolivariana da Venezuela, cujo crescimento econômico foi de 8,5%. São as duas maiores taxas de crescimento, enquanto a média da América Latina e do Caribe foi de 5,6%.

A Venezuela está entre os países que mais conseguiram melhorar a remuneração de seus trabalhadores, a qual aumentou em mais de 3%, índice só alcançado por Argentina, Brasil, Colômbia e Uruguai.

Estima-se que 36,5% da população latino-americana sejam formadas de pobres. Individualmente, o país que mais reduziu a pobreza foi a Argentina. Entre 2002 e 2006, o país reduziu a pobreza em 24,4% e a indigência em 13,7%.

O segundo país com as melhores taxas é a Venezuela, que, entre 2002 e 2006, diminuiu a pobreza e a indigência em 18,4% e 12,3% respectivamente. Segundo a Cepal, “a elevada taxa de crescimento do PIB, bem como a implementação contínua de programas sociais de grande amplitude, permitiram que, somente entre 2005 e 2006, a taxa de pobreza passasse de 37,1% para 30,2%, e a indigência de 15,9% para 9,9%”. O relatório registra ainda que “este acelerado avanço significa um melhoramento importante das perspectivas de redução da pobreza, e incrementa significativamente a facilidade de cumprir a primeira meta do milênio”.

O Brasil está em 9º lugar na redução da pobreza e em 7º na redução da indigência, apesar de ter conseguido colocar mais de 8 milhões de pessoas na classe média. Entre as dificuldades do Brasil está a histórica má distribuição de renda, a 3º pior do mundo. O relatório da Cepal informa que o Brasil apresenta diminuição de “4,2 pontos percentuais tanto na pobreza como na indigência entre 2001 e 2006”, taxa que tem forte impacto no nível regional, “já que implica uma queda de 6 milhões no número de pessoas indigentes”. Para a Cepal, “um fator crucial por trás deste desempenho figuram os programas públicos de transferência de renda, especialmente o bolsa família”.

O governo Chávez precisava de médicos para atender a população do interior do país, para onde médicos venezuelanos, em sua maioria filhos da elite, não se dispunham a ir. A solução foi trocar petróleo subsidiado por médicos cubanos. Atualmente 25 mil médicos da ilha de Fidel Castro trabalham no país, reduzindo, por exemplo, a mortalidade de mais de 30 para 13‰, metade da média brasileira.

As escolas públicas venezuelanas passaram a ter ensino integral, ou seja, as crianças agora chegam à escola, têm suas atividades pedagógicas pela manhã, almoçam, e permanecem com outras atividades à tarde. Os educadores brasileiros sonham com isso.

A democracia na Venezuela é outro ponto importante. Conforme escreveu o jornalista Carlos Azevedo, “todas as mudanças promovidas por Chávez foram feitas a partir de eleições, plebiscitos e consultas à população. Desde 1998 realizaram-se dez eleições e plebiscitos no país”. A próxima será para saber se a população aprova as mudanças na constituição propostas por Chávez. Carlos Azevedo lembra que “nenhum governo em tempos atuais consultou tão freqüentemente a população como o venezuelano. Eleições cuja lisura não foi contestada por observadores internacionais. Chávez ganhou todas e por larga margem”.

E, como não custa nada perguntar, eis o que Carlos Azevedo questiona: “Ou democracia é comprar deputados e fazer passar uma emenda à Constituição no Congresso para permitir a reeleição do presidente, sem consultar a população, como fez FHC mudando a regra do jogo para ganhar um novo mandato em 1998? Isso é democracia ou é golpe? É golpe. Mas para a imprensa oligárquica FHC é o democrata impoluto. E Chávez é que é ditador?” Pode-se fazer mais uma pergunta: será se alguém se lembra que Fernando Henrique Cardoso apoiou o terceiro mandato do ditador Alberto Fujimori, do Peru? Fujimori, acusado de corrupção no Peru, fugiu e hoje cumpre prisão domiciliar no Chile. Ele deverá ser julgado por crimes de corrupção, tráfico de armas e genocídio pela justiça peruana, como informa a revista Carta Capital. Entre as testemunhas arroladas por Fujimori está Fernando Henrique Cardoso como testemunha de defesa.

Podemos lembrar ainda que a Constituição de 1988 foi promulgada sem participação popular direta; o mandato de José Sarney foi aumentado de 4 para 5 anos e ninguém pôde opinar; os prefeitos eleitos em 1982 ganharam mais dois anos e ficaram com mandatos de 6 anos. Quem foi consultado sobre isso? A Lei de Diretrizes e Bases da Educação aprovada nos anos 90 não teve qualquer participação popular.

Se para se ter democracia é preciso que haja participação popular, a Venezuela, pelo menos nesse aspecto, está acertando. Se é ter eleições livres, a Venezuela por isso não pode ser condenada. Se é dar melhores condições de vida à população, reduzindo a pobreza, a miséria, e dando mais educação e saúde, então, a Venezuela está no caminho de consolidar sua democracia. Agora, se tudo isso não representar um esforço rumo à democracia, poucos países conhecidos como democráticos terão de ser considerados ditaduras.

E a mídia, por que não divulga isso? Por que não divulga os números da Cepal/ONU? No entanto, quando o instituto Latinobarômetro publicou que Chávez é um dos menos populares chefes de Estado da América Latina, a mídia divulgou à exaustão. Quando Chávez na ONU se referiu a W. Bush como diabo, a imprensa mostrou isso até não poder mais. E quando o rei Juan Carlos disse “por que não te calas?”, a imprensa não pôde conter-se de felicidade, mas não disse nenhuma vez que, de fato, José Maria Aznar, quando primeiro ministro espanhol, apoiou o golpe de Estado contra Chávez em 2002, e que a Espanha foi o primeiro país, antes mesmo dos Estados Unidos, a reconhecer “o novo governo” de Pedro Carmona, então presidente da Fedecámaras, a federação das indústrias da Venezuela.

O fato é que a vida dos pobres venezuelanos está mudando e hoje o Estado está sendo gerenciado a serviço dos que, durante toda a história daquele país, foram excluídos dos recursos do petróleo, que uma casta de funcionários da empresa petrolífera venezuelana (PDVSA - Petróleos de Venezuela S/A) usava para seu próprio bem viver. É essa elite que não se conforma em ter perdido suas benesses. E como a imprensa é da elite ela bombardeia o presidente. Caso semelhante ao Brasil, cuja elite não se conforma em ser governado, e bem governado, por um homem de origem popular.

Nabupolasar Alves Feitosa é Professor da Faculdade de Educação, Ciências e Letras de Iguatu/Universidade Estadual do Ceará.

Comentários  

 
#2 José Felipe Ferreira 02-08-2010 11:54
Agora começo a ver com clareza. Artigo muito bem escrito e com informações relevantes. Obrigado, professor!
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#1 Isabela 12-07-2010 18:33
Fico feliz que pense assim professor e por ter me ajudado a entender fielmente o se passa na Venezuela. Obrigada! :D
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