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Passagem de Ano

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Encontrava-me exausto. O corpo moído de cansaço. A julgar pela intensidade da escuridão, pelo profundo silêncio reinante, conclui que estava próximo da meia-noite. Abri a porteira do tempo e, voltado para o caminho até então palmilhado, recostei-me em um dos mourões para recuperar o fôlego e avaliar o resultado de tão longa e penosa jornada. Jamais tentaria repassar, em minutos, o percurso já percorrido, se não contasse com a magia e os segredos da mente. Assim, retornando ao passado, desfiz a dobras do tempo e imergi num mundo de recordações, a procura de lugares, pessoas e fatos, alojados no escrínio da memória.

Logo me dei conta de, ainda criança, ter-me largado no oco do mundo, sem paradeiro certo, em busca de um lugar ao sol. Deixando para trás, o torrão, em que nasci, no município de São Mateus, aqui no Ceará, fui ter para começo de conversa, em Juazeiro do Padre Cícero. Lá fiquei, cerca de dez anos, A cidade era um aglomerado heterogêneo de nordestinos, que fiéis aos ensinamentos do velho patriarca, destacavam-se por um forte espírito de religiosidade e acendrado amor ao trabalho. A cada pausa, as conveniências da vida, indicavam-me o novo caminho a seguir. Não deu para permanecer aí. Fortaleza surgiu como o próximo destino e fui parar na capital cearense, ofuscado pelo brilho da cidade grande, embora o lugar padecesse, no momento, sob os efeitos da Segunda Guerra Mundial. Nova frustração. Ainda em meio ao curso da guerra retomei as trilhas do sertão indo, desta feita, bater em Iguatu. Nesse lugar demorei um bocado. Tanto é verdade que cheguei até a pensar que tinha sossegado o facho. Vi a região elevar-se na crista da onda do algodão, experimentando momentos de elevado estágio econômico. Apesar das circunstâncias, não deu pé ainda.  De novo fui obrigado a juntar os cacaréus e pegar estrada. Transpus a Serra do Apodi e cedi aos encantos de Assu, no Rio Grande do Norte. Todavia notei que a economia da zona ressentia-se da desvalorização da Cera de Carnaúba. Outra desilusão.
Finalmente, não podendo desistir de meu intento, retornei a Fortaleza em mais uma tentativa.  A cidade já assumira ares de metrópole.

Fazer o que, pensava eu? Nasci cearense, marcado pelo estigma do nomadismo. Nunca me fixei definitivamente em lugar nenhum. Apesar de considerar-me figura errante, não posso negar que, soube muito bem aproveitar, onde quer que estivesse, a hospitalidade das pessoas, tirando partido da influência positiva que elas exerciam sobre mim ao plasmar minha individualidade. Mentalmente sentia-me reconfortado, mas diante do muito que ainda tinha que andar, preocupava-me a lerdeza e meus passos e a letargia que, aos poucos entorpecia os meus músculos.  

A ansiedade dominava-me completamente, quando felizmente acordei. Tudo não passou de um sonho. Vi-me então, em meio ao alarde do repicar festivo dos sinos nas igrejas, do o soar intenso das sirenes nas fábricas e do ensurdecedor espocar de fogos nos céus, saudando a entrada do ano novo, espetáculo que começou em pleno sono e desembocou no lado de cá, na vigília do despertar.

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