Jornal A Praça - O Jornal de Iguatu

Você está aqui: Notícias Cartas O homem que engarrafava nuvens

O homem que engarrafava nuvens

E-mail
O leitor deve estranhar o título deste comentário e até pensar que é coisa de louco. Engarrafar nuvem? Mas como já falaram que há uma certa identidade entre poeta e louco, se confundindo um pouco, o leitor tem razão de pensar. Este título foi construído das palavras ditas por um dos grandes poetas da musica popular brasileira, que numa das suas últimas entrevistas antes de se ir definitivamente deixando saudade, falou para um repórter que ia se aposentar e ficar morando no seu sítio em Mangaratiba (RJ) “engarrafando nuvens”!

Este poeta chamava Humberto Teixeira. Um iguatuense filho de tradicional família desta terra onde passou a sua infância. É autor de mais de três centenas de músicas, letras que são lindas poesias, na sua maioria com uma linguagem telúrica, inspirada nas figuras, costumes e no amor ingênuo e sublime que compunham o ambiente da sua infância no sertão iguatuense e nordestino. Coisa que lembra o estilo lindamente usado bem antes por Guimarães Rosa na sua imortal obra ‘Grandes Sertões Veredas’. Autor de letras de músicas como Asa Branca (“Quando olhei a terra ardendo, qual fogueira de São João, eu perguntei a Deus do céu por que tamanha judiação?...Quando o verde dos teus olhos se espalhar na plantação, eu  te asseguro, não chores não, viu? Que eu voltarei, viu, meu coração.”), Dona dos Teus Olhos (“Não te esqueças que eu sou o dono dos teus óio, faz favor pra não espiar pra mais ninguém, Esse azul cor de promessa dos teus óio, faz qualquer cristão gostar de tu também, Que nosso Senhor perdoe os meus ciúme, quando penso em cegar os óio teus, Pra que eu, somente eu, seja teu guia, os óio dos teus óio, a luz dos óio teus.”), Légua Tirana  (“Oh que estrada mais comprida, oh que légua tão tirana, ai se eu tivesse asa, inda hoje eu via Ana. Quando o sol tostou as foia e bebeu o riachão...”), A Estrada de Canindé  (“...Quem é rico anda em burrico, quem é pobre anda a pé. Mas o pobre ver na estrada o orvalho beijando a flor, ver de perto o galo campina que quando canta muda de cor...”), Assum Preto (Tudo em volta é só beleza, sol de abril e a mata em flor...Assum Preto o teu penar é tão triste quanto o meu, também roubaram o meu amor que era a luz, ai, dos olhos meus.”), A Estrada do Bosque (“...Vem ver, vou mostrar-te querida, uma estrada perdida toda cheia de flor, vem ver, as belezas da vida nessa estrada do bosque onde nasce o amor...E lá, nós dois sozinhos, mais ninguém, só nós dois juntinhos, eu te direi então: dá-me o teu coração. Vem ver essa estrada perdida entre as muitas, é a estrada do amor.”). E tantas outras! Mas apesar de tudo isso, de tanta poesia, Humberto Teixeira nunca teve o reconhecimento merecido.

Mas até que enfim e ainda bem, a sua filha, a atriz Denise Dumont, que foi há algum tempo protagonista de sucesso em novelas da Globo e em diversos filmes nacionais, ela, que apesar de filha, também não tinha o real conhecimento do valor da contribuição que seu pai legara à cultura brasileira através da poesia e da música, como que se redimindo, resolveu ir fundo, pesquisar incansavelmente e mostrar para o Brasil e para o mundo quem foi o “doutor do baião”, título carinhosamente lhe concedido pelo seu parceiro e intérprete maior, Luiz Gonzaga. E assim nasceu o filme que ela denominou O homem que engarrafava nuvem, que conta a vida e a obra, as alegrias e até tristezas (acontecimentos da sua vida conjugal até então desconhecidos do público e que foram corajosamente narrados) do iluminado Humberto Cavalcanti Teixeira.

Este trabalho foi apresentado no antigo e belo Cine São Luiz durante o Festival Ibero-Americano de Cinema/19º Cine Ceará, há alguns dias e eu e outros familiares mais próximos de Humberto Teixeira, como o Eurico Jr., seu primo segundo, a convite da Denise, tivemos o privilégio de assistir.

O filme compõe um acervo de muita importância para a memória cultural/musical do Brasil, sobretudo da Região Nordestina. É um documentário diferente de muitos que já vi, do começo ao fim prende a atenção e dar alegria a quem assiste. É recheado de interpretações musicais, depoimentos e entrevistas de grandes artistas nacionais, como, Caetano Veloso, Fagner, Maria Bethania, Belchior, Bebel Gilberto, Carmélia Alves, Lenine, Raul Seixas, Elba Ramalho, Sivuca e tantos outros, inclusive um dos maiores, o “rei do baião” Luiz Gonzaga, além do próprio Humberto Teixeira que depõe durante quase todo o filme. Se encaixam no documentário expressões culturais, paisagens, figuras, costumes e tradições do Nordeste brasileiro, e aí se ver reisado, banda de pífaros, a caatinga, a seca, vaqueiros, pequenos conjuntos musicais como o do Cego Jeová de Iguatu, tudo enfim que fez parte da vida de Humberto Teixeira e lhe inspirou a criar tanta coisa boa  tal qual o baião, cuja influência foi notória na história da música popular brasileira e até  em ritmos internacionais como o reggae. É uma aula gostosa de se participar, ver, ouvir e vibrar bairristicamente com razão, por termos como conterrâneo uma figura tão importante para o mundo artístico como foi Humberto Teixeira.

Depois da exibição e dos aplausos demorados do público, fui emocionado abraçar a Denise e pedir-lhe que desse oportunidade ao povo de Iguatu de também sentir aquela emoção e alegria, conhecendo mais o valor deste iguatuense que deixou para o mundo esse legado inesquecível, exibindo o filme nesta terra. E ela ficou de atender.

Adicionar comentário


Código de segurança
Atualizar