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[Crônica] - Passagem do ano

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Faltava pouco para a meia-noite. Muito cansado, entreabri a porteira do tempo e, voltado para o caminho até então percorrido, recostei-me em um dos mourões para recuperar o fôlego e avaliar o mérito de tão longa e penosa jornada, antes de transpor a marca da sucessão dos anos. Jamais tentaria repassar uma existência inteira, em minutos, se não contasse em meu favor, com a magia e os segredos da mente que desafiam o entendimento humano. Assim, adentrei as brumas do passado, detive-me em desfazer as dobras do tempo e demorei um bocado em consultar o imenso caudal das recordações, procurando localizar lugares, pessoas e fatos que, infelizmente, muitas vezes, não se acham com a clareza de detalhes no escrínio da memória.

O que em primeiro lugar acudiu-me ao pensamento foi o fato de ainda criança, ter que deixar o lugar no qual nasci, no município de São Mateus. Fui levado para o Juazeiro do Padre Cícero, onde por dez anos convivi com um aglomerado heterogêneo de nordestinos que, graças ao espírito de religiosidade e à força de um trabalho persistente, operaram o milagre em que se transformou a Meca do Cariri.  Não parei por aí. Em seguida arrumei os trens e fui ter à Fortaleza, ofuscado pelo brilho da capital cearense, mas tangido pelos efeitos da guerra retomei os caminhos do sertão indo parar em Iguatu. Ali já contava ter sossegado o facho. Por um período de vinte e seis anos vi a região elevar-se na crista da onda do ouro branco, experimentando momentos de alto estágio econômico. De novo fui obrigado a juntar os cacaréus, transpor a Serra do Apodi e alojar-me em Assu, no Rio Grande do Norte, onde a economia da região ressentia-se da desvalorização da Cera de Carnaúba. Atraído de novo pela pancada do mar, retornei à Fortaleza. A cidade já assumira ares de metrópole.

Não me custou concluir ser fruto das beiras de estrada. Nunca me fixei nas cidades que me deram pousada. Apesar de considerar-me caminheiro da vida, um mero itinerante, não posso negar que recebi de cada localidade onde permaneci, incentivos que influenciaram decisivamente na minha formação e na minha individualidade.

Ao soar os sinais da passagem do ano, despertei de minhas reflexões, fechei a porteira atrás de mim, reiniciei a caminhada, atento ao que alguém ao lado me segredava: “Não acrescente dias a sua vida, mas vida aos seus dias”.

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