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Dom Gentil Diniz Barreto

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Um santo homem foi Dom Gentil Diniz Barreto, quarto bispo diocesano de Mossoró (RN), figura extraordinária que escolheu essa porção do solo norte-rio-grandense para viver, trabalhar e morrer. Não quero aqui repetir o que muitos, sem dúvida, já escreveram a respeito de suas virtudes evangélicas, dotes intelectuais e zelo apostólico, visto como não se chega ao episcopado sem o cultivo, em grau máximo, dessas disposições de espírito que levam à santidade. Vou ater-me somente às suas admiráveis qualidades humanas.

Encontrei-me com Dom Gentil, pelos fins de l968 em Assu (RN). Estava ele, na oportunidade, em visita pastoral à paróquia.  Meses depois, fui reencontrá-lo em Tibau, na casa de praia da diocese, onde estive a convite de sua excelência reverendíssima. Era um sábado de pleno inverno. Antes de chegar a Tibau preocupava-me com coisas da etiqueta. Como tratá-lo. Decerto que o encontraria formalmente de batina, com larga faixa roxa cingindo-lhe a cintura, um barrete também roxo no alto da cabeça e a cruz peitoral a reluzir pendente de um discreto torçal.  Essas divagações ainda turvavam-me a mente, quando, para minha surpresa, ao chegar ao meu destino, deparei-me com Dom Gentil, trajando calça e camisa e calçando rústicas sandálias. Maior ainda foi minha perplexidade, no momento em que, a despeito de meus insistentes protestos, passou a ajudar-me a lavar, o meu Fusca coberto de lama. Isso era apenas o começo de uma sucessão de gestos nobres, com que me comutaria durante a hospedagem.

No resto do dia cobriu-me de atenções e, à noite, depois de agasalhar a minha família, indicou-me uma rede em seu quarto, onde devido ao reduzido número de cômodos da casa, dormiria, fazendo-lhe companhia. Morto de cansaço deitei-me e ao amanhecer do domingo dei por Dom Gentil levantando-se em pontas de pés para não me incomodar.

Antes do almoço, nesse dia, vestindo poderoso traje de banho, convidou-me o meu anfitrião para um mergulho no mar. A tranqüilidade da maré baixa permitiu-nos uma longa conversa durante o banho. Depois de falar-lhe sobre minhas dificuldades como gestor de uma casa bancária, cuidando dos tesouros da terra numa zona pobre e desprovida de recursos técnicos, segredou-me, sem dúvida para consolar-me, que a vida de um prelado também não era fácil. A administração dos recursos do céu inerentes ao múnus episcopal às vezes pesava-lhe muito nos ombros.

Ainda não me refizera, por completo, do desvanecimento e lisonja que senti diante da bondade e fidalguia de Dom Gentil.  Preocupava-me em retornar a Assu, com tempo para assistir à missa. Foi então, nesse instante, que sua excelência apressou-se em tranqüilizar-me dizendo-me que decidira antecipar a celebração do santo sacrifício nessa tarde, a fim de que eu não viesse a incorrer em descumprimento do preceito dominical.

A quanto chegam os liames da fé, a grandeza infinita da fraternidade cristã e a magnanimidade de coração de um humilde pastor, cuja simplicidade e doçura lembram o Homem de Nazaré.

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