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Calazar: Cães infectados, sacrificados e morte de gente

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Foto: J. GuedesHá cerca de um mês leitores têm enviado e-mails para a redação do jornal A Praça para denunciar a matança indiscriminada de animais, principalmente cães, que, de acordo com o manifesto, não há no município nenhum órgão de defesa dos bichos. As denúncias estão sendo feitas por iguatuenses que residem em outros Estados e se dizem incomodados com os episódios de mortes. A matança tem uma explicação lógica: os cães estão sendo sacrificados porque estão doentes. Leia abaixo um trecho de um dos e-mails, enviado por Maria Amélia da Silva. Ela disse que está mobilizando comunidades na internet, através de sites de relacionamentos e ameaçou levar o assunto à grande imprensa televisiva.

“Venho através deste e-mail falar com a direção deste Jornal, pois acabei de voltar de Iguatu, e infelizmente o que vi em relação aos animais e a doença Calazar muito me preocupou. Também por nada está sendo feito para evitar a mortandade de animais na cidade, e a contaminação nos humanos. Sou presidente fundadora da Proteção Animal na cidade de Queimados/RJ e também realizo um trabalho de prevenção de doenças que é de utilidade pública.   Preciso alertar que a situação está mesmo muito grave, já que no ano de 2008 foram 42 casos confirmados. Infelizmente quem está sofrendo com estes casos são os cães, pois somente eles morrem aos montes todos os dias dentro do CCZ. Parece que os governantes desta cidade não conhecem a lei 9.605, Art 3.

Centro de Controles de Zoonoses e o combate à doença

O veterinário Valderi Nobre, que coordena o Centro de Controle de Zoonoses-CCZ, de Iguatu, disse à reportagem do jornal A Praça que os casos de Calazar em cães e em humanos vêm sendo registrados, não só no Ceará, mas também em outros estados vizinhos, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Piauí. Segundo ele, a equipe do CCZ realiza três vezes por semana, segunda, terça e quarta, as operações de captura de animais soltos nas ruas, principalmente cães. A chamada ‘carrocinha’ percorre bairro a bairro à busca dos animais ‘errantes’, ou seja, aqueles bichos que perambulam pelas ruas. Segundo Valderi, desde o início de janeiro que vem sendo feito o trabalho de‘inquérito canino’ com a coleta de sangue nos animais, trabalho este que conta com a parceria da Fundação Nacional de Saúde. Valderi informou que o trabalho está sendo concluído na sede para em seguida chegar à zona rural. O veterinário explicou que o objetivo das operações é detectar os animais infectados pela ‘lechimaniose visceral’, para o controle do Calazar na Região. Na opinião do veterinário, as queixas dos defensores dos animais são legítimas, mas no entanto relatou que no caso dos animais doentes infectados por Calazar não há outra saída, senão sacrificar para evitar que a doença se espalhe.

De acordo com dados do Centro de Controle de Zoonoses, de janeiro a maio já foram sacrificados em torno de 70 cães, todos soropositivo do Calazar. “Nossa meta é combater esse inseto, fazendo o trabalho de controle para que esta doença não venha a causar mais danos à saúde da população”, explicou.

Sobre o fato da população cobrar ações mais efetivas dos órgãos sanitários de saúde, Valderi Nobre informou que as equipes cumprem normas estabelecidas pelo Ministério da Saúde. Segundo ele, a determinação é que as borrifações só sejam feitas numa área circunferencial de 300 metros onde tenham surgido casos de Calazar em humanos nos últimos cinco anos. Ele explicou que quando isto ocorre o Ministério faz o trabalho de borrifação para tentar bloquear o mosquito naquela área. Contudo, Valderi Nobre enfatizou que não é possível aplicar simultaneamente inseticida numa residência aonde surgiu um caso da doença animal, apenas quando envolve vida humana. Foi o que ocorreu com uma residência da Rua José Pastor, no bairro Morenão, onde surgiu um caso de Calazar numa pessoa. Outro caso da doença em humanos foi confirmado no bairro São Sebastião. De acordo com informações do setor de endemias da secretaria de Saúde do município, ambos os pacientes vítimas da doença estão sendo tratados.

Valderi informou que normalmente o proprietário da residência é orientado a eliminar todo tipo de matéria orgânica da área próxima à residência, já que o mosquito vetor da doença se reproduz onde há restos de folhas, fezes de animais, sobras de madeira, lixo e outros materiais em decomposição. O veterinário enfatizou que não basta apenas tirar o cão de circulação. “Além de retirar o cão do local de convivência com o homem, é necessário eliminar o mosquito, já que o inseto pode permanecer na área se houver condições favoráveis para sua propagação”, declarou.
    
Sobre o trabalho operacional de combate ao mosquito Flebótomo dentro das residências, Valderi afirmou que em algumas situações as equipes têm dificuldade de fazer o trabalho. Ele disse que na primeira vez em que é feita a borrifação, o morador aceita numa boa, mas quando a equipe retorna para fazer a segunda aplicação muitos moradores resistem, por conta da mão de obra de afastar os móveis da casa para que o trabalho surta o efeito necessário.

Laudo médico confirma morte por Calazar

Enquanto as autoridades estão lutando para combater o mosquito 'Flebótomo', vetor do Calazar, uma pessoa morreu vítima da doença. No dia 11 de agosto de 2008, o senhor José Alves de Matos, de 84 anos, morreu por ter contraído Calazar. Segundo relatos da família que reside na Rua Antônio Mendonça, bairro Brasília, o ancião foi medicado em Iguatu e havia a suspeita de que ele estivesse com dengue. Ao ser transportado para Fortaleza, um dos profissionais da equipe médica que o atendeu, ao suspeitar da doença solicitou um exame específico. Só que já era tarde, o senhor José Alves morreu um dia após ser feito o exame. A demora em diagnosticar a doença encurtou a vida do ancião. Se o exame específico tivesse sido feito logo no surgimento dos primeiros sintomas talvez José Alves ainda estivesse vivo. A família da vítima confirmou que o laudo expedido pela equipe médica atesta que ele morreu por ter sido infectado pela doença.

Demora na avaliação das amostras pode favorecer avanço da doença
    
As amostras de sangue colhidas em animais na Regional de Iguatu são enviadas para o Lacen - Laboratório Central, no município de Crato. O município, através das equipes da Funasa, CCZ e setor de endemias, está fazendo o trabalho operacional de combate ao mosquito e controle do Calazar. Acontece que a burocracia e o grande volume de amostras no LACEN de Crato pode retardar os diagnósticos e gerar danos na identificação dos casos da doença. Além de Iguatu, o laboratório também atende outros municípios do Estado. Para evitar este tipo de transtorno, muitos proprietários de cães estão recorrendo a clínicas veterinárias particulares para examinar os animais. Em Iguatu, apenas a clínica São Lucas, do médico veterinário Joaquim Marques, está equipada para realizar o exame. Joaquim Marques disse que este problema não se restringe apenas a Iguatu. O veterinário lamentou que a deficiência na realização dos exames crie tantos eventuais transtornos para os criadores de animais. Joaquim Marques disse que atende diariamente casos de moradores que levam seus animais para serem examinados. O médico relatou que já encaminhou animais para serem encaminhados, após o diagnóstico da doença.

Sintomas
    
Sobre os sintomas da doença, Joaquim Marques informou que o animal infectado pode apresentar características incomuns ao seu comportamento normal. Falta de apetite, consequentemente perda de peso, pelo sem brilho, queda do pelo ao redor dos olhos, manchas ou ferimentos na ponta do nariz e nas orelhas, ferimentos na ponta da cauda, hemorragia nasal, crescimento do fígado, baço, anemia, crescimento desordenado das unhas, comprometimento dos rins são aspectos infalíveis da doença. Mas o médico advertiu para um outro agravante. Segundo ele, o animal também pode estar infectado sem apresentar os sintomas da doença. Segundo o veterinário, no homem o protozoário ataca também órgãos vitais como o fígado, baço e a medula óssea. “Há casos de humanos em que a vítima morre em consequência de problemas reais, uma vez que o único medicamento que mata o protozoário, o Glucantime pode efetar os rins da pessoa”, disse.

Veterinário do CCZ afirma que município está fazendo sua parte

Outro médico veterinário, João Francisco do Amaral, também médico do Centro de Controle de Zoonoses, foi ouvido pela reportagem do jornal e teceu importantes considerações sobre o Calazar. João Francisco garantiu que o município está fazendo sua parte, em relação ao trabalho de coleta de amostras nos cães que supostamente possam estar infectados. Ele defende o trabalho de borrifação para eliminar o mosquito transmissor da doença. Segundo João Francisco, o mosquito infectado pica o cão e deixa lá a Leishimaniose viceral, protozoário que causa o Calazar. De acordo com o veterinário, o que está acontecendo em Iguatu pode ser classificado como ‘epizoótico’, com um número elevado de cães acometidos da doença. Segundo João Francisco, há uma alerta em ‘sinal vermelho’ por causa dos muitos casos ‘assintomáticos’, ou seja, os animais estão infectados pela doença, mas não apresentam sintomas. O médico se referiu também à ‘vigilância entomológica’, estudo e controle dos órgãos para extermínio dos insetos transmissores de doenças, especificamente os transmissores de doenças infecciosas e parasitários, o Cúlex (muriçoca),  Aedes aegypti, (transmissor da dengue), Flebótomo (Calazar) e o Triatoma (Barbeiro), que transmite a doença de Chagas.

Hernani Bezerra, coordenador de Controle de Endemias da secretaria de Saúde, informou que o município está trabalhando para combater a doença. Hernani enfatizou que está sendo desenvolvido um trabalho em duas linhas de frente: o controle de reservatório, o animal doméstico, no caso da Leishimaniose, o cão fazendo o ‘Inquérito Sorológico’. Ele assegurou que já existe um planejamento da secretaria de Saúde de Iguatu de fazer um levantamento da saúde dos cães em todo município, incluindo as zonas urbana e rural. Hernani confirmou que os casos de cães soropositivos, são eutanaziados, já que é inviável optar pelo tratamento do animal, pois poderá haver resistência do protozoário e gerar novas complicações no tratamento de casos envolvendo seres humanos. Ele afirmou ainda que o trabalho de coleta para exames nos animais está sendo feito numa cobertura de todo município. “Hoje Iguatu tem aproximadamente uma população de 11.100 mil cães, conforme estimativas do Ministério da Saúde. Do total de animais examinados, 2% está infectado, o que representa um número de 230 animais”, disse. O coordenador afirmou que este percentual é aceitável, considerando o número de animais para uma população de quase 100 mil moradores. “Até o mês de maio, nós já trabalhamos em torno de 60% desses animais, nessa população canina, o que representa 5.475 animais”, disse.

Segundo ele, a previsão é que o trabalho seja concluído até o final do ano, incluindo da zona rural. O coordenador lamentou que os animais infectados estejam indo a sacrifício, mas lembrou que este é um ato para preservar a vida humana. Hernani tranquilizou a população dizendo que a ‘alta positividade’ de animais doentes está diretamente relacionada com o trabalho preventivo que vem sendo feito. Segundo ele, antes não havia um levantamento mais preciso da presença do protozoário em cães, em todo município, tal qual está acontecendo agora. “Nós fazíamos apenas baseados nos casos de Calazar em humanos dos últimos cinco anos, agora estamos examinando toda a população canina, o que significa um trabalho minuncioso e preciso na identificação de eventuais casos da doença”, afirmou. Hernani Bezerra relatou que graças a este trabalho estão sendo detectados animais infectados com a doença em quase todos os bairros da cidade. “É interessante a gente dizer para a população que não precisa se apavorar, porque todas as medidas recomendadas pela Organização Mundial de Saúde e pelo Ministério da Saúde estão sendo adotadas em tempo hábil”, concluiu.

Flebótomo está migrando para a cidade

Valmir Torres da Silva, supervisor da Funasa em Iguatu, explicou o trabalho que os agentes do órgão estão fazendo de examinar os cães e coletar amostras para avaliação em laboratório. Ele informou que as endemias (Calazar), (Dengue) e (Doença de Chagas) são atribuições do município com a orientação e supervisão da Funasa. Valmir Torres confirmou as ações desenvolvidas pelas equipes e ressaltou o apoio dispensado pela administração, num gesto do prefeito Agenor Neto, para uma cobertura de 100% do trabalho de combate ao inseto transmissor do Calazar. Indagado sobre a presença do mosquito Flebótomo na cidade, ele informou que este fator aconteceu por questões de desequilíbrio ambiental. “O desmatamento e a diminuição do habitat natural do mosquito está fazendo-o migrar para a cidade; antes este inseto vivia predominantemente na zona rural, onde é maior a concentração de matéria orgânica”.

De acordo com o supervisor, o ‘Inquérito Canino’ está cobrindo 100 localidades na sede e zona rural, numa operação que percorre casa a casa. Valmir Torres informou que duas pessoas do CCZ sob a supervisão de um técnico da Funasa estão fazendo a coleta das amostrar para o envio até o município de Crato.

O supervisor da Funasa informou sobre dois casos de Calazar em dois moradores de Iguatu, um dos bairro Veneza (já citado nesta reportagem) e outro do bairro São Sebastião. Ele disse também que em ambos os casos os infectados estão em tratamento. Valmir Torres enfatizou que nas áreas onde esses casos foram identificados, a Funasa fez o trabalho de ‘borrifação’ num raio de 300 metros (em cada residência) para eliminar qualquer presença do mosquito Flebótomo. Mesmo assim o supervisor ressaltou que as equipes enfrentam dificuldades, uma vez que o trabalho de  borrifação é feito em três ciclos. Segundo ele, no segundo ciclo as equipes enfrentam resistência dos moradores que não querem aceitar a pulverização, alegando alergias e a remoção dos móveis dentro de casa.

Comentários  

 
#3 Mônica Paschoal 11-02-2012 08:36
Sinceramente, na minha opinião não vejo nenhum esforço por parte das autoridades e nem pela medicina veterinaria, em investir recursos para estudos que possam revelar a cura dos animais ja infectados.
É mas facil mandar matar, custa menos, para os cofres públicos.
Agora eu só digo uma coisa: não tem sentimento pior , do que você, criar um cão, e ter que leva-lo para sacrificar.
Você se senti horrível, de maos atadas sem poder fazer nada, por mais que tenha dinheiro, pois nesse caso na existe tratamento que venha levar a CURA.
Lembrem se que por mais que seja uma animal, todos tem direito a vida.
A vida é graça de Deus e só ele pode decidir o momento de cada um,não esqueçam que o animal também é criação de Deus.
E um dia todas as pessoas vão ter que prestar conta de deus atos no JUIZO FINAL, onde Jesus vira para julgar vivos e os mortos.
É nessas horas que tenho vergonha de ser Brasileira.
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#2 rui rocha 21-03-2011 15:07
O cão acaba morrendo no tratamento Priscila. Foi assim com o meu Buldog. As autoridades públicas são os vilões nessa doença, pois não estão nem ai. Em Fortaleza, onde moro, a sugeira é gritante em todos os bairros, exceção do nobre onde há jornalistas, empresários grandes e os próprios políticos. No restante é só sugeira. Culpa também da população que é na grande maioria sem educação, e da prefeitura que não gasta os recursos com a cidade como deveria. É péssimo morar num País desse! Animal nunca mais quero criar.
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#1 Priscila Lima Cabral 31-08-2010 18:53
Às vezes, me pergunto se a faculdade de medicina veterinária não está com o ensinamento suficiente para passar pros "veterinários burros" que não é matando os cães que vamos acabar com o calazar. O dever de todos vocês foram se formar para proteger os animais e cuidar bem deles. Sejam homens e mulheres de caráter e corram atrás do vilão dessa tragédia. Na verdade, são poucas os sábios veterinários neste país. Até quando vocês vão querer matar nossos animais. Por favor, se movam e parem de matar os inocentes. Vocês, gostariam de serem mandados à cadeira elétrica sem ter feito nada ??
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