IGRAINE “Ubi est Graal?” (de somnio meo)

24/04/2021

O Ciclo Arturiano tem lendas admiráveis. Especialmente evoco uma delas, por demais poética e insólita. A personagem é a bela, enigmática Igraine, a mãe do Rei Arthur. Contam os mitos que ela era casada com o Duque de Tintagel quando, em um baile, Uter Pendragon a conheceu e por ela nutriu um adúltero e profano sentimento. O velho Uter fez então um pacto com Merlim, o Mago. Daria qualquer coisa que ele pedisse se pudesse ter a esposa do Duque. Merlim concordou e então, em uma noite sombria, de chuva, enquanto o Duque havia deixado o seu castelo para ir a uma batalha, o Mago operou seu sortilégio. Transformou Uter na figura do Duque. Assim o futuro pai do Rei Arthur pôde passar pelos guardas e deitar-se com Igraine. Foi apenas uma noite. A Duquesa nem suspeitou. Porém quando o verdadeiro Duque voltou da guerra, Igraine compreendeu tudo. Daquela noite de pecado depois nasceu Arthur e Merlim o requisitou. O Duque de Tintagel veio a morrer e Uter casou-se com Igraine. A criança foi criada nos bosques por Merlim e pela fada Viviane.

O mito de Igraine tem uma estranha sensualidade. Algo sacrificial, inocente e ao mesmo tempo muito profano. A esposa entrega-se, totalmente inconsciente do fato, à efígie sortilégica do marido. Ama-o; o ardor talvez intenso, inesperado deveras. Arthur, o fruto daquele delito, nasce já sob o signo da traição. Muito depois, sua Rainha Guineverre o trairá com o Cavaleiro Lancelot. Mas Igraine, com o seu sonoro nome simbolista, paira em pureza acima de tudo isso. Dormia e foi despertada para a violação…. ou para o Amor!

Para Igraine escrevemos este poema:

IGRAINE

Igraine a dormir… neblina…

Sortilégios são reais?

Há uma sombra na cortina;

Passos cruzam os umbrais…

 

A noite é estranha, de ausências…

No repostério o luar

É vermelho de dolências

Qual um cordeiro a sangrar…

 

Em efígie Ele tornou,

Mas no espelho não há luz.

Eros! A Sombra o matou!

Mors à carne que seduz!

 

Igraine! Lírio Perdido!

O anjo triste da luxúria

Amou-a. Ah, cristal partido…

Do sangue haverá a fúria.

 

Inoccens! Bela! Sem desejos;

Mater da busca do Graal!

O amor não passa de lampejos

De algo maior, mais Ideal!!!

 

Professor Doutor Everton Alencar
Professor de Latim da Universidade Estadual do Ceará (UECE-FECLI)

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