É história ou estória?

03/07/2021

“Há quem defenda que devemos utilizar o termo história para a narração de fatos documentados e situações reais sobre o passado da humanidade, e o termo estória para a narração de fatos imaginários, de ficção.”

Flávia Neves, professora de Português

 

Ao analisar determinada fonte histórica, o historiógrafo, quando preocupado com a busca pela verdade, não se deixando levar por tendenciosidades unilaterais, de cunho político, oferece ao leitor uma transparente e clara narrativa do que de fato aconteceu no decurso da história.

Lamentavelmente, na realidade, sabemos o porquê de historiadores abandonarem o compromisso com a verdade e embarcarem na militância cega. Ora, claro que há os inúmeros profissionais sensatos, meu caro leitor, em todas as esferas profissionais; ocorre que, não obstante tais honrosos profissionais dedicados e compromissados, a universidade transformou-se, doravante, em um antro de palanque político militante, onde muitos propedeutas se colocam como doutrinadores – ainda que o neguem.

Ora, quem já passou – ou está passando – por qualquer faculdade pública, da unidade federativa (aqui, no caso, o Ceará, evidentemente) ou Federal, ou até mesmo privada, viu com seus próprios olhos e sentiu na pele tamanha intolerância trajada de combate ao “fascismo” ou qualquer outra bobagem que eles consideram preconceito, só por não estar de acordo com os seus dogmas imutáveis –  aliás, minto, são mutáveis se assim for conveniente e vantajoso para eles. Digamos que “coerência” não seja algo que norteia essa turma da “lacração”.

O filósofo e professor L. F. Pondé certa feita denunciou tal vergonhosa situação periclitante do nosso Ensino Superior: “A universidade, além de irrelevante, vai se tornando, aos poucos, um celeiro que faria inveja ao fundamentalismo islâmico em termos de ódio e intolerância.” – Luiz Felipe Pondé.

Entretanto, assim como o filósofo alemão F. Nietzsche, no seu famoso Ecce Homo, onde lê-se “não serão por mim erigidos novos ídolos”, também eu não pretendo oferecer ícone algum, mas, ao contrário, deixá-los livres de dogmas, sofismas e demais artifícios enganosos para doutrinar os desavisados.

A minha proposta é simples. A sua essência cristalina reside precisamente em não recorrer a qualquer subterfúgio que se assemelhe a estas tendenciosidades doutrinárias das quais relatei a pouco. Que a base seja tão somente a leitura honesta; sim, recorrer aos livros, de forma que não possamos ser influenciados pelas deturpações de tantos ‘‘mestres’’ de sala.

Não convém, preclaro leitor, em tempos de militância exacerbada, de fé cega, de bitolados, nos acharmos entre eles. Faz-se necessário um estudo proveniente do ‘‘eu’’, para que não ocorra de tornarmo-nos presas fáceis. A leitura honesta, repito, livre de influências externas, é redentora. Se assim lhe convir proceder, estimado leitor, saberá identificar, nos livros e na oratória da vez, a falácia escusa. Em outras palavras: saberá identificar se estão lhe contando, via escrita ou oral, a história ou uma estória.

Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

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