À noite, todos os gatos são pardos

04/04/2025

Era fim de festa quando Matheus, ébrio até não poder mais, olhando no fundo dos olhos da jovem – ainda que sem enxergá-los -, disse: ‘‘À noite, minha gata, todos os gatos são pardos’’, e sumiu por entre a multidão agitada.  Ela, furiosa por tê-lo flagrado aos beijos com uma desconhecida, ficara ainda mais irritada ao ter como resposta a algo injustificável, um ditado que ela nunca antes tinha ouvido falar.

Ela pesquisou na internet e descobriu o significado. Ei-lo:

‘‘O ditado ‘À noite, todos os gatos são pardos’ significa que, em certas situações, especialmente em momentos de paixão, emoção ou falta de clareza, as diferenças entre as pessoas ou as coisas podem ser obscurecidas ou perder importância. Em outras palavras, o ditado sugere que, em momentos de intensidade ou confusão, as pessoas podem perder a capacidade de discernir ou julgar com precisão, e as diferenças entre as coisas podem se tornar menos importantes. O ditado também pode ser interpretado como uma forma de dizer que, em certas situações, as pessoas podem ser mais propensas a se deixar levar por seus instintos ou emoções, em vez de usar a razão ou a lógica para tomar decisões. Em resumo, o ditado “À noite, todos os gatos são pardos” é uma forma de dizer que, em certas situações, as diferenças entre as pessoas ou as coisas podem ser obscurecidas ou perder importância, e que as pessoas podem ser mais propensas a se deixar levar por seus instintos ou emoções.’’

Deste dia em diante, mediante muita reflexão relativa à conduta do então namorado, a jovem decidiu redefinir alguns valores que havia deixado escapar. Dentre eles, o amor-próprio. Foi preciso o copo transbordar para ela finalmente perceber que a prioridade de cada um, seja ele quem for, é ele mesmo. Não se trata de egoísmo, mas de bom senso e respeito para consigo.

A jovem, que havia sido tão cega pelo amor que sentia por Matheus, agora via as coisas com mais clareza. Ela percebeu que havia sido tratada como uma coisa secundária, um objeto que podia ser usado e descartado a qualquer momento. Com a dor da traição ainda fresca, ela começou a se questionar sobre o que havia feito de errado. Por que havia permitido que Matheus a tratasse daquela maneira? Por que havia sido tão tolerante com as suas infidelidades?

Mas, à medida que refletia sobre essas questões, ela começou a perceber que não era culpa dela. Ela não havia feito nada de errado. Foi Matheus quem havia escolhido trair a confiança dela, quem havia escolhido não respeitá-la. Com essa nova perspectiva, a jovem começou a se reconstruir. Ela começou a se cuidar, a se amar e a se respeitar.

E, enquanto isso, Matheus continuava a viver sua vida, sem perceber o quanto havia perdido. Ele não sabia que a jovem que ele havia traído havia se tornado uma mulher forte. A jovem, agora, podia olhar para trás e rir daquela noite em que Matheus havia dito “À noite, todos os gatos são pardos”. Ela sabia que aquela frase havia sido uma desculpa esfarrapada para justificar sua infidelidade, mas também sabia que aquela frase havia sido o catalisador para a sua transformação.

Ela havia aprendido que, sim, à noite, todos os gatos podem parecer pardos, mas que, ao amanhecer, a verdade é revelada, e é possível ver as coisas com mais clareza. E, com essa clareza, é possível começar a construir uma nova vida, uma vida mais autêntica e mais feliz.

 

Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

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