A razão de Acácio (II)

06/08/2022

Do ponto de vista da estrutura, o romance é extremamente simples: são trinta e nove capítulos curtos, os quais podem ser lidos isoladamente, embora se deva observar que, na contramão do que é próprio do gênero, os finais se mantenham abertos. No mais, é visível a presença dos elementos do conto clássico – a narrativa é linear e se desenvolve em torno de um número reduzido de personagens, observando-se rigorosa unidade dramática, de espaço e tempo -, mas, importante frisar, a técnica adotada pelo autor descola-se da imobilidade da fotografia (de que se aproxima a técnica do conto tradicional) e transita, hábil e envolvente, para o movimento cinematográfico. Se, a exemplo do que se verificou em teoria conhecida, um filme se “escreve” com a câmera, ocorre a Claudio Arcanjo “filmar” com palavras: a cena é apresentada com ritmo narrativo preciso, condizente com a densidade a um tempo dramática e cômica das falas (o diálogo é dominante) e a narração desliza, minudente, com a aguda percepção do que, ‘a olho nu’, passaria despercebido do leitor. Não é sem razão que se pode dizer que o narrador capta o detalhe do ambiente e dos gestos, a princípio considerados desimportantes, para compor o quadro, não raro indo à perfeição de um close up bergmaniano: “Ao voltarmos para a sala de seu apartamento, reparei que, sobre a mesinha junto à velha cadeira de balanço, repousava a nova edição da obra Fronteira, de Cornélio Penna” (à página 23).

Esse recurso é recorrente no romance, mas, ao contrário do que se poderia pensar, um minimalismo desnecessário, a focalização do pormenor tem, invariavelmente, sua razão de ser, e casa à perfeição com o âmago da cena. Uma variação de humor, uma imprecisão do gesto, um detalhe na descrição do ambiente, um pigarreio, um silêncio mais prolongado antes de interagir com o interlocutor, ou, como no exemplo acima, o registro da existência de um objeto ou livro largado à mesinha da sala, têm sempre a ver com o componente psicológico das personagens e servem para pontuar os conflitos, recorrentes, entre Clauder Arcanjo-personagem e o Conselheiro Acácio, o alter ego do Clauder Arcanjo autoral.

A propósito, assim como no fragmento destacado, em toda a extensão do romance veem-se referências a livros, autores, ideias filosóficas, citações, enfim, intertextualidades que fazem de “A razão de Acácio” uma experiência de leitura agradável e enriquecedora. Sob este aspecto, acrescente-se, aqui e além a narrativa envereda pelo vasto terreno da teoria literária ou da metalinguagem, e são comuns as reflexões em torno do próprio fazer literário, a exemplo do que se lê à página 29, quando Arcanjo, entre enciumado e curioso, pondera sobre o Acácio escritor: “Não o tinha como romancista. Achava-o amante das formas breves: do conto, do aforismo, do relato minimalista…”.

Mais que evidente, pois, o fato de que o romance lança luz sobre a vida privada e intelectual de Clauder Arcanjo, num tipo de transposição de natureza autobiográfica que, sob qualquer aspecto, beira o autoelogio, a expressão involuntária de qualquer vaidade pessoal ou, mesmo, como de costume em narrativas do gênero, alguma inclinação para idealizar o que foi sua trajetória como homem e como escritor.

Nesse sentido, por curioso, o que poderia soar piegas e afetado, como o uso constante da linguagem em sua função estética, resulta espontâneo e extremamente poético, na linha do que está à página 29: “O passaredo lá fora brincava com a manhã, e o tempo já se banhava com o sol da manhã”.

A se contrapor, sem descuidar da elegância do estilo, ao cariz poético do texto, ressalte-se a desabrida comicidade do enredo, a exemplo da passagem em que o narrador descreve o grotesco desconforto de Acácio ao ingerir, desavisadamente, um copo de água com gás no café de uma livraria: “O consequente arroto, ao se ver preso pela boca educada, vazou-lhe pelos olhos, pelo nariz e pelos ouvidos. Lágrimas acorreram aos olhos envergonhados do Companheiro. Os bons modos não resistem ao calor nordestino, cá matutei”, ou quando faz o registro regionalista ao ambientar a cena na mitológica Licânia: “Fui desperto, e salvo, pelo farfalhar distante das carnaubeiras e pelo trinar dos pássaros a voltarem para os benjamins da Praça do Poeta. A tarde caíra”.

Com singular originalidade, ainda que emanando um indisfarçável perfume machadiano, “A razão de Acácio” é romance de gente grande, na dimensão daqueles que, como diz Osvaldo Araújo na feliz apresentação do livro, “não cabem em adjetivos”.

Livro para ler e reler.

 

Álder Teixeira é Mestre em literatura Brasileira e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais

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