
Kleyton Bandeira
Cantor, compositor e pesquisador cultural
Você sabe quem é Oswaldo Sargentelli?
Sargentelli foi apresentador de TV, empresário da noite e também radialista e locutor nos anos de 1940. Na saudosa TV Tupi, Sargentelli comandou programas como “Advogado do Diabo” no qual fazia perguntas polêmicas aos convidados. Acontece que, em 1964, no início do regime militar, Sargentelli foi proibido de exibir o programa. Com isso, ele abriu uma casa noturna chamada Sambão, que ficava localizada em Copacabana, e mais duas casas noturnas, a Sucata e a Oba-Oba.
Pois bem…
Certo dia, Sargatelli liga para o cearense Evaldo Gouveia e diz que está com um menino, na Rádio Guanabara, e que precisa falar urgente com ele, mas não poderia ser por telefone, tinha que ser pessoalmente. Quando Evaldo chega na Rádio, Sargentelli diz “Evaldo, esse menino é muito talentoso, veio lá do Espírito Santo e precisa muito da sua ajuda”. Evaldo então pediu ao menino para cantar algo e ele, então, cantou “Tudo de Mim”, de Evaldo Gouveia e Jair Amorim. Quando o menino terminou de cantar, Evaldo, emocionado, perguntou qual era o seu nome e ele então respondeu Altemar Dutra de Oliveira.
Evaldo Gouveia gozava de muito prestígio no meio musical e prometeu levar Altemar Dutra numa gravadora, mas antes o convidou para ir em sua casa. Almoçaram, beberam alguma coisa e conversaram bastante. Evaldo, ali, ficou sabendo da situação difícil pela qual passava aquele garoto que acabara de chegar no Rio de Janeiro para tentar a vida como cantor e decidiu ajuda-lo: “hoje você dorme aqui e vou te apresentar a algumas pessoas”.
Evaldo, então, leva, naquela mesma noite, seu hóspede à Boate Cangaceiro, onde se apresentava todas as noites a cantora carioca Helena Lima, que fazia muito sucesso àquela época. Antes de falar com o dono da boate, Evaldo apresenta Altemar Dutra aos artistas que ali estavam, sempre dizendo que aquele rapaz tinha uma das maiores vozes do Brasil. No entanto, ele não convenceu o dono da boate que foi irredutível e não aceitou que o novato se apresentasse. Mas Evaldo não desistiu e foi no camarim de Helena e pediu para que ela abrisse um espaço em sua apresentação para que Altemar Dutra se apresentasse. Como eles eram muito amigos, ela concordou de pronto.
Helena subiu no palco, foi ovacionada, cantou duas músicas e chamou Evaldo Gouveia, que estava com 12 músicas entre as mais tocadas do Brasil (lógico que o público foi ao delírio), mas, dessa vez ele não cantou. “Eu tô trazendo um rapaz aqui que tem uma voz tão bela como a da minha irmã Helena Lima. Recebam com aplausos Altemar Dutra”.
Entra no palco aquele pequeno homem, grande cantor, ajeita o violão na perna e canta “Tudo de Mim”. Quando ele termina, o público o aplaude de pé. Evaldo chora de emoção e Altemar Dutra emenda com “Brigas”. O público delira, grita e pede mais. No entanto, Evaldo Gouveia não deixa mais Altemar Dutra cantar. Quando descem do palco o dono da boate chama o Evaldo e diz “Elvaldo, eu quero contratar esse rapaz”. O Evaldo, só de sacanagem, então responde “sinto muito, meu amigo, mas a boate da frente, a Boate Michel, acabou de contratar o Altemar”. O dono da Cangaceiro retruca “não! Eu dobro o negócio”. O Evaldo, quase rindo, diz “agora eu tenho que conversar com o homem”.
Quer saber como essa história termina? Acompanhe a nossa próxima coluna que eu te conto.
Por hoje ficamos por aqui!
Bom final de semana!
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