Capitu e Aristóteles

08/06/2019

“… como a vaga do mar lá fora (…)”

Machado de Assis

Eu sempre soube que Capitu traiu Bentinho. Ficou-me a certeza logo após a minha primeira leitura do romance. Do adultério, dado como certo, ouvi de ilustres e caros críticos e professores que tive. A um deles faço menção agora e mor reverência: Moreira Campos. Consolidou minhas certezas o que dele ouvi em uma palestra. Afirmou o mestre que o caráter dissimulado de Capitu quem o notou primeiro não foi o enciumado protagonista. Foi o José Dias, um terceiro observador. Isto é definitivo, como veremos.

A ingênua defesa de Capitulina afirma que todas as suspeitas de traição não passam de invencionices de um ciumento doentio. A narrativa em primeira pessoa é invocada como prova – frágil – deste argumento. Mas como um outro, fora das tenções do casal, pôde ter visto a potencialidade traidora de Capitu?

Aqui trago Aristóteles como idônea testemunha de acusação. A sua infalível lógica, exposta na obra Organon, nos fala sobre as categorias Potência e Ato, presentes na natureza e no homem. Diz-nos o célebre aluno de Platão que toda Potência deve inevitavelmente transformar-se em Ato. Assim, verbi gratia, uma espada é uma das potências do ferro colocada em ato.

A aplicação deste argumento nos leva a um silogismo de irrefutável conclusão sobre a traição da famigerada Capitu. Esta tinha a Potência do adultério, cousa vista por terceiros. Então tal categoria obviamente transformou-se em Ato.

Eis o silogismo: Premissa A: Todas as mulheres que possuem a Potência do adultério converterão tal potência em Ato traidor. Premissa B: Capitu era uma mulher com a Potência do adultério. Conclusão: Capitu traiu Bentinho. Cale-se a defesa desta terrível mulher. Lógica pura. Traiu. Bentinho foi uma pobre vítima.

Cuidado, amigo leitor, cuidado. Livre-se de mulheres desta espécie capitulina. Talvez sirvam para amante. E por pouco tempo. Para esposa não serve.

Professor Doutor Everton Alencar
Professor de Latim da Universidade Estadual do Ceará (UECE-FECLI)

MAIS Notícias
DEVANEIOS MITOLÓGICOS I EROS PRIMORDIAL
DEVANEIOS MITOLÓGICOS I EROS PRIMORDIAL

  (....) Non nobis, Domine, non nobis...   Quando me detenho a refletir sobre a relação entre o homem e a Divindade, não procuro eco ou lenitivo na obra de Homero. O bardo dos primórdios da Hélade (supondo que tenha havido realmente um só Homero) nos fala sobre deuses...

DEVANEIOS MITOLÓGICOS I EROS PRIMORDIAL
DEVANEIOS MITOLÓGICOS I EROS PRIMORDIAL

    Quando me detenho a refletir sobre a relação entre o homem e a Divindade, não procuro eco ou lenitivo na obra de Homero. O bardo dos primórdios da Hélade (supondo que tenha havido realmente um só Homero) nos fala sobre deuses volúveis, movidos por caprichos e...

Christina Rossetti
Christina Rossetti

“Even so my lady stood at gaze and smiled...” Dante Gabriel Rossetti   Christina Georgina Rossetti (1830-1894) foi uma das máximas ladies da honorável Victorian Poetry. Ricamente educada desde a infância, sabia grego, latim, várias literaturas e era profundamente...

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *