Devaneios na madrugada

06/11/2021

Ontem de madrugada o céu ameaçou chover, fazendo aumentar o calor, dificultando a vinda do sono. A bem da verdade, o que me causava insônia não era o clima abafado, nem os primeiros respingos efêmeros e modesto das gotas caindo no telhado, fazendo aquele barulho próprio, que embala o sono de muitos, exceto o meu.

Sabendo que não iria me convencer da minha autoilusão, resolvi passar o tempo com um café e uns tragos em companhia de uma árvore – a julgo centenária – que vive na calçada, em companhia dos gatos que a utilizam para ter acesso ao telhado da velha casa.

Lá, embaixo de suas folhas, os pingos de chuva (aliás, neblina) não me alcançariam, pensei. E assim fiz. E ocorreu-me a lembrança das mulheres com as quais passei horas conversando sob as folhas protetoras da companheira árvore. Ali, muitas foram as decepções amorosas, embora, de quando em quando, algumas investidas exitosas propiciaram momentos inesquecíveis… ou quase inesquecíveis, posto que já me esqueci de algumas.

Sou um entusiasta da madrugada, seja no silêncio, seja nos barulhos próprios dessa noite-dia. Durante certo tempo, olhei para o céu. Obnubilado pela lua, vislumbrei, ao olhar para o horizonte, entre respingos finos, a silhueta de uma mulher de cabelos negros e ondulados. Minha falha visual não me permitiu constatar se se tratava de uma visão espectral ou de uma alucinação causada pelo desejo que me acometeu; a insônia e eu, tentando convencer-me, culpava a temperatura febril do meu corpo e do clima estranho e abafado de uma neblina quente.

Sempre vejo algo onde não há nada, e, ironicamente, não vejo o que está à minha frente. Seguindo com baforadas fortes, coração acelerado, já não me preocupava com os respingos no meu corpo quente (pelo café e pela ‘‘visagem’’); sabia que já não mais dormiria. O dia amanheceu, olhei para um pequeno e arisco felino que descia da árvore, olhando para a esquina onde o vulto surgira ou onde minha imaginação o fez surgir. Um gato e nenhum sono… tenho que parar de ser visitado por espíritos, sejam divinos ou demoníacos.

Moreira Campos, grande contista cearense, disse que os cães veem coisas… mas acho que os gatos são os verdadeiros detentores desse dom. O felino em epígrafe é demasiado sensível e tenaz ao meu ver. Características que fogem aos cães, penso. O gato lembra mais alma de mulher, do que qualquer outro bicho: sorrateiro, independente e imprevisível. Quando as características são as opositoras destas que citei, obviamente trata-se de um tolo homem; tolo por essência inalterável.

Era isso, então. Uma árvore, um gato, uma alucinação ou espírito feminino… Era tudo o que tinha nesta madrugada silenciosa, irrompida somente pelos poucos trovões que buscavam ser ao menos coadjuvantes da noite doentia. Acredito precisar largar o café. Mudar de bebida. Tomar muita cerveja, eis a solução. Quando a mente encontra-se sobremaneira atormentada, é provável que sejam os espíritos boêmios instalados, requerendo o ambiente que tinham em vida. Acho que é o que na Umbanda eles chamam de ‘‘cavalo’’.

Mas não sou uma pessoa religiosa, mas materialista, ainda que creia, em menor ou maior grau, em espíritos.

Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

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