“É-me impossível”
Gramática é primacialmente lógica e norma. Filosofia. Excetuando a Fonética, cousa meramente descritiva, a partir da Morfologia, seguindo pela Sintaxe, Estilística e até a Semântica, não há como não aplicarmos métodos estritamente dialéticos e racionais para entendermos uma língua e sua gramática. Ratio semper docet.
Sobretudo tal se verifica na Sintaxe, the mainstream of the language. Ecce exemplum verbi gratia: “É-me impossível”.Este enunciado nos traz o verbo ser no presente do indicativo, o pronome oblíquo “me” e o adjetivo “impossível” compondo uma oração sem sujeito. Napoleão Mendes de Almeida, em sua notável Gramática, atesta ser possível a impessoalidade do anômalo verbo ser. Cita Camilo: “Muito se lucra quando se é honrado”. Página 219.
Embora asseverem os britânicos: Old wolf dont yelp in vain, o prisco e sábio mestre nos dá uma aporia, uma “beco sem saída intelectual”. O problema não está no oblíquo “me”, inconcusso dativo. A singularidade é o adjetivo “impossível”, o qual não pode ser classificado sintaticamente. Isto ocorre porque se não há sujeito, como pode haver predicativo do sujeito? O vocábulo fica completamente solto se admitirmos a tal impessoalidade do anômalo verbo ser. Non praedicativus, nam subjectus non est.Seria como dizer que há um filho sem uma mãe: filius est sed non mater.
Igualmente esquipática, registre-se, é a sintaxe deste oblíquo “me”, oriundo do pronome pessoal latino em dativo singular “mihi”. Causa-nos espécie a sua relação com o verbo copulativo ser: “é para mim”. Não assim no mater sermo.O verbo esse, também neutro, podia-se construir com dativo. Vide: hoc erit tibi dolori (isto será dor para ti).De todo modo, construção algo inusitada em nosso vernáculo.
Por outra via, cum grano salis, poderíamos ligar o “me-mihi” como complemento nominal ao adjetivo abstrato “impossível”. Não seria bizarro e até aceitável. Contudo, resta ainda o cruciale aenigma da função sintática do adjetivo “impossível” com a impessoalidade do verbo ser. Uma conclusão podemos aduzir: o verbo anômalo “ser” não pode, sob pena de absoluta contradictio in termis, ter o mesmo status de copulativo e de impessoal.
Então estamos na completa e perdida “selva escura” de Dante? Não. Há uma luz. Há como explicar sintaticamente este enunciado e muitos outros da mesma labiríntica grei. A Teoria da Elipse. Mas tende calma, conspícuo leitor. Isto virá em um outro Vernacular Devaneio. Valete!
Professor Doutor Everton Alencar
Professor de Latim da Universidade Estadual do Ceará (UECE-FECLI)
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