Com certeza, pelo menos uma vez na vida, alguém já deva ter lido ou ouvido a famosa frase ‘‘Viver é um ato político’’, atribuída a Todeschi. Obviamente, ninguém seria louco de negar que as relações interpessoais estão imbuídas de trocas recíprocas; vantajosas para o bem-estar comum de um determinado grupo. Ocorre que há um pequeno erro de aferição no que diz respeito a política. Há, na realidade, um erro grotesco em considerar que absolutamente TUDO é, por excelência, sem titubear, invariavelmente, ação política.
Basta que observemos as relações homem/mulher para que percebamos o quão pernicioso é levar para a cama ou para o campo dos sentimentos, diretrizes políticas que em nada contribuem para uma relação sólida e saudável; ao contrário: tal ‘‘ingrediente’’ – a política – não faz nada mais do que derrocar a vida a dois.
As barbaridades da militância política cega, que não ‘’se desliga’’ nem mesmo ante a cópula notívaga, onde, ali, privam-se de certas posições por simplesmente ter deixado que feministas, por exemplo, vigiasse até a forma de fazerem amor, é, sem dúvida, a constatação da demência ocasionada pela lavagem cerebral da ‘‘política na cama’’.
É importante lembrar que política diz respeito aos cidadãos e ao Estado. É pólis. Em escala individual, a política não deve exercer poder sobre quem e como se deve amar e/ou conviver. E isso se aplica a todos os indivíduos – afinal, como bem disse Ayn Rand: ‘‘A menor minoria da Terra é o indivíduo’’.
Nem tudo é política…
Uma dose e aquela canção
– Uma dose, juro que será a última; é que o momento é oportuno, moço: pouco movimento, há bastante gelo e limão, pensamento nela… Não me faça essa desfeita, aproveite e repita ”aquela canção” que faz todo ser governado por uma só pessoa – supliquei ao garçom-amigo.
E assim fez-se luz, fazendo dissipar treva horrenda, onde meu sorriso pouco surgia.
A canção pedida incessantes vezes, era uma ode ao nosso amor. Ela sabia disso, fizemos dela nosso hinário sagrado. Nunca fomos muito religiosos, é fato, mas era ritual que seguíamos disciplinarmente, logo depois da noite morrer e o silêncio da madrugada ser interrompido por risos, gemidos e estalar de lábios.
Olha, amor, é a nossa canção!
Nesse bar, nesse balcão onde muitos lamentaram suas agruras, te vejo passar pela rua em vários corpos e rostos femininos… Quem dera fosse torpor alcoólico… é alma latente afogando-se, em vão acenando. Olho mais uma vez, a fim de enganar-me que eras tu do outro lado da avenida principal. Não, não era… apenas uma mulher bonita, nada mais.
Assim como o garçom e sua indisposição para servir-me, estás a negar-me vida. Eis que o cadafalso e o algoz têm, aqui, nomes: o primeiro, ingratidão, o segundo, a mulher amada que não ama.
Que se dane o passado e a criatura que me colocou em tão periclitante existir, há centenas de bares, posso muito bem ser enxotado de todos, é isso o que me resta nessa vida: beber e tornar-me um vacilante e invisível pedinte. Já aprendi a rejeitar e ser rejeitado. De todos os meus insucessos e desventuras, encontrar lugar para uma alma decadente, é o menor dos problemas.
– Olha!… Será que agora é ela que ali vem?…
Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História
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