“Quem, portanto, não ama a solidão, também não ama a liberdade: apenas quando se está só é que se está livre (…) Cada um fugirá, suportará ou amará a solidão na proporção exacta do valor da sua personalidade. Pois, na solidão, o indivíduo mesquinho sente toda a sua mesquinhez, o grande espírito, toda a sua grandeza; numa palavra: cada um sente o que é”. – Arthur Schopenhauer
Ela sentia saudades de casa; da forma como suas roupas amaciadas ficavam acomodadas no roupeiro após serem lavadas aos domingos; de como o cheiro de café invadia o seu quarto todas as manhãs. Sentia falta do seu avô contando histórias de quando, na mocidade, fora enfrentar a guerra nas trincheiras, sendo, juntamente com os demais parceiros de farda, égide do – como ele gostava de orgulhosamente falar -: “glorioso Exército Brasileiro”.
Ah, a saudade! Durante horas, saudosista, ela ficara de olhos fitados naquele retrato que há muito estava engavetado no criado esquerdo de sua cama. A menina podia sentir o cheiro da infância ao aproximar a foto às narinas úmidas pelo pranto. Observando cada ruga do seu velho avô, que tanto fez por ela, se dava conta do quão errôneo foi a decisão de morar distante do seu velho instrutor dos caminhos que ela nunca, uma só instrução sequer, seguiu (coisa de juventude inconsequente).
Após preparar um chocolate quente (pois café daqueles… só o vovô sabia preparar), voltou para o quarto, sentou-se em frente à janela e pegou a foto novamente em suas mãos, retomando lembranças que o tempo tratou de esconder no fundo da alma. Lembranças quase mortas e que agora se fazem mais vivas do que nunca. Recordou de quando, uma única e desesperadora vez, ficara presa no banheiro; das idas e voltas do colégio; do garoto que, intrépido e audacioso, lhe pedira em namoro ao seu avô… Muitos eram os pensamentos e recordações que agora invadiam a sua vida naquele instante a sós no quarto, em um lugar distante, frio, escuro e aconchegante para os que amam a solidão; mesmo na melancolia consciente dos erros cometidos.
De repente, a essa altura, um carro surge como único condutor de luz a iluminar sua janela, onde a moça, semiacordada, assustada, cuida em acender as luzes dos abajures daquele vão escuro à qual chamou de lar. Nenhum barulho que suspeitasse vida se fazia naquele quarto… nem lá fora. A menina, agora moça, sombria e afetuosa, pensava se não seria a hora de sair daquele quarto de pensão para voltar a viver como quando mais jovem. Porém, hoje, já sem a figura do seu avô – que, àquela época dourada, era a pedra principal do seu existir -, não parecia tal ideia fazer tanto sentido assim (exceto pela nostalgia a qual sentia)
Abriu a porta – chovia – e olhou para o céu nebuloso daquele mês de rusgas introspectivas e de respingos de chuvas e remorsos diversos, voltou para o quarto do qual sequer chegou a sair, enrolou-se em um grosso cobertor, pôs a foto do avô por entre o peito e, quase sussurrando, disse: “Eu não vou embora, vô; o meu lugar é na escuridão, não na luz, onde só os fortes tem coragem… sou covarde demais para pensar merecer vida nova”.
Sentiu paz na escuridão, no prumo soturno e no vento frio que entrara pelo cobertor, invadindo a sua alma. Ali, naquele vão, as lágrimas e os respingos secaram no lençol do tempo, e o sol não apareceu no outro dia, para o bem dos amantes da chuva, o sol não apareceu.
Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História
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