OBRA TOTAL

03/01/2025

Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo.
Assim, de forma desconcertante, começa o romance “Cem anos de solidão”, tragando o leitor para as águas profundas de uma obra construída com originalidade rara e inigualável poder de sedução. Por isso, consciente do que fora capaz de realizar em matéria artística, Gabriel García Márquez, o autor dessa verdadeira obra-prima, jamais admitiu ver o livro transformado em filme.
Decorridos dez anos desde a morte do escritor, sua família concordou em vender os direitos de adaptação para a Netflix, não sem estabelecer no contrato algumas exigências: o filme teria de ser rodado na Colômbia, e o elenco constituído de atores e atrizes colombianos. Foi além: o romance seria preservado em sua integridade, sem acréscimos ou subtrações que tirassem dele a substância essencial da narrativa, e que “contasse” a trajetória dos Buendía com a mesma precisão, exatidão e poesia.
Assim foi feito. Os diretores do seriado, Laura Mora e Alex García, conforme projeto multimídia divulgado pelo New York Times, há alguns meses, debruçaram-se sobre o realismo mágico do romance, algo sem definição precisa de uma obra de arte calcada na incontida busca de revelar o lado possível da irrealidade, que nasce da imaginação do artista.
E a vida cotidiana se redimensiona, cobrindo-se de cor e escuridão, de verdade e fantasia, de chão, terra, flores e personagens dotadas de múltiplas faces e perfis. Maravilha.
Esta, a razão por que se considerava talvez impossível (por certo desaconselhável) tecer com outros elementos de linguagem, outros códigos estéticos, uma “obra total”, na linha do que definiu exemplarmente bem um dos maiores conhecedores da obra de Gabriel García Márquez, também ele extraordinário criador de histórias e, como o escritor colombiano, prêmio Nobel de Literatura, ninguém menos que Mario Vargas Llosa.
No seu incontornável “García Márquez: história de um deicídio” (Editora Record, 2022), no capítulo 7, intitulado Realidade Total, Romance Total, assim diz ele sobre o clássico agora disponível na Netflix: “Dificilmente uma ficção posterior poderia fazer com “Cem anos de solidão” o que o esse romance faz: reduzí-los à condição de prenúncios, de partes de uma totalidade”.
O comentário de Llosa, cumpre-me esclarecer, é uma alusão ao que explora nos capítulos anteriores do livro, nos quais aborda um a um os textos que serviriam de caminho para a construção da obra máxima de Gabriel García Márquez: narrativas curtas em que os elementos do realismo mágico se vão erguendo, tomando forma, insinuando-se com sua atmosfera de fantasia e delírios que povoariam mais tarde o romance “Cem anos de solidão”. Destacam-se, à altura, textos produzidos para jornais entre 1950 e 1954, “A revoada” (O enterro do diabo), de 1955, “Ninguém escreve ao coronel”, de 1961, “Os funerais de mamãe grande”, de 1962, e “O veneno da madrugada”, de 1966, entre outros. Esse processo, a propósito, pode ser conhecido no recém-lançado “A caminho de Macondo”, projeto original de Conrado Zuluaga e apresentação notável de Alma Guillermoprieto (Editora Record, 2024).
Mas volto à versão cinematográfica, evidenciando que a concepção formal do seriado, distanciando-se do que foi a televisão há alguns anos, em que os televisores de dimensões reduzidas exigiam a exploração de planos fechados, closes e movimentos de câmera tímidos, agora é naturalmente cinematográfica, a exemplo do que se pode ver nas novelas da Globo mais recentes.
Em “Cem anos de solidão”, o seriado, o que se vê, portanto, é uma produção cinematográfica elevada à sua potência máxima em termos formais: a beleza da imagem, o esmerado trabalho de montagem, o requinte técnico, a direção de atores, o uso fascinante do som e da luz, tudo, tudo, rigorosamente falando, é quase perfeito, num trabalho que nada deixa a desejar em dimensão estética ao hipotexto em que está plasmado.
Quanto ao conteúdo, é preciso que se faça aqui uma advertência. A primeira parte do seriado, abordando pouco mais pouco menos da metade do livro de Gabriel García Márquez, é fidedigna, absoluta, atenta, com sutis alterações na estrutura do romance, e, claro, a adoção de um ritmo narrativo apropriado a uma história contada em outra linguagem, mais completa do ponto de vista dos elementos que a constituem. Resulta disso, para o sucesso ainda maior da obra, o fato de que é impossível assistir ao seriado sem que, ato contínuo, volte-se ao livro propriamente dito. A coluna recomenda a última edição brasileira, da mesma editora, com tradução “irrepreensível” de Eric Nepomuceno, em brochura, disponível a preços promocionais nas livrarias da cidade.
Na sequência dos oito episódios já disponíveis na Netflix, virão outros oito.
Em tempo: Sou contra a que se façam comparações ingênuas do tipo: “É melhor o livro ou o seriado?”, pois que são duas obras, com especificidades de código e linguagem distintos. Ambas maravilhosas.
Álder Teixeira é Mestre em literatura Brasileira e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais
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