Rubrae Rosae

16/04/2022

“… in this dark world and wide…”

John Milton

 

Muito nos tem incomodado,

O último quarto do Sobrado…

……………………………………..

O musgo sobre a tumba fria

Já a esperava… e ela tossia…

Por toda a noite assim jazia,

Pequeno lírio maltratado.

 

O Sobrado era o dos Vilaças. Destacava-se majestoso na praça principal da cidade. As janelas vermelhas quase ocres contrastando com a cor escura das paredes envelhecidas.

Na minha infância eu ouvi muito essas histórias…

Ia casar-se a menina Luísa. Mal fizera dezessete anos. O noivo, o jovem Carlos D’Aguillar, bacharel em Direito, formado em Coimbra. Arranjado o casamento. Mas tudo foi feliz: a menina era obediente aos pais. Ademais, apaixonou-se pelos retratos do mancebo. A festa prometia ser das maiores.

Era toda euforia, fulgurante, a Luísa esperando as núpcias. Seus grandes olhos negros, o cabelo longo e também negro esvoaçando pelos corredores do Sobrado… Acariciava cada peça do enxoval.

O quarto dos casados seria o último do velho corredor. Era o maior, foi reformado para o casamento. As janelas davam para a praça; via-se a torre da Igreja logo em frente e os sinos todos os dias acordariam o casal em felicidade perpétua.

O noivo estava para chegar. A festa pronta. A menina Luísa era um lírio primaveril pronto para desabrochar como mulher.

Mas chegaram a casa rubras rosas. Vermelhas de doer na vista. Não se dão rubras rosas a uma noiva. Elas sabem a paixões profanas, a pecados, a sangue…

Logo depois, quando vieram ventos frios e chuvas nocivas, a menina começou a tossir. Logo foi perdendo os risos… definhando… Os suores gélidos noturnos, febres longas, a tosse… as torturantes hemoptises…

Não se dão rubras rosas a uma noiva.

A menina Luísa morreu transida de enorme tristeza. Não podia compreender tanto sofrimento tão próximo de tanta felicidade.

O quarto, o último do Sobrado, foi mantido intacto, com todas as roupas do casamento sobre a cômoda e sobre a cama. O vestido da noiva pendurado à parede.

Então, por muitos anos, eu ainda cheguei a ouvir na minha juventude, sucederam-se as estranhas coisas…

Risos, depois choro e tosses ouviam-se dentro do quarto fechado. Também passos apressados e choro convulsivo…

A menina Luísa nunca esteve em paz.

 

Muito nos tem incomodado,

O último quarto do Sobrado…

 

Professor Doutor Everton Alencar
Professor de Latim da Universidade Estadual do Ceará (UECE-FECLI)

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