Uma manhã de sol, em Paris, sou acordado bem cedo por um amigo brasileiro que chega à cidade pela primeira vez. Era espírita devotado, queria, antes de qualquer coisa, visitar o Cemitério Père Lachaise. Não me ocorreu que essa fosse uma prioridade no programa de alguém que chega a Paris numa manhã de sol.
Explicou-se. Ali estão enterrados grandes vultos da humanidade, entre eles, Allan Kardec, o pai do espiritismo. E, para me convencer de que valeria a pena irmos ao Père Lachaise, desfia um rosário de nomes famosos que descansam ali. Sabendo-me amante da literatura, menciona Honoré de Balzac, Oscar Wilde, Paul Éluard, Marcel Proust, entre outros. Vai à música: Maria Callas, Édith Piaf, Rossini, Frédéric Chopin. Cita pensadores: Pierre Bourdieu, Auguste Comte, Michelet. Atores e cineastas: Sarah Bernhardt, Marcel Camus, Yves Saint-Laurent. E, como sabe que aprecio a pintura, dá-me o golpe fatal: Amedeo Modigliane, Eugène Délacroix, Jeanne Hébuterne…
Levanto-me, traço um café au lait avec petit-beurre, e saímos em direção ao metrô.
O Cemitério Pére Lachaise fica nos arredores do gigantesco centro de Paris, vigésima circunscrição administrativa da capital francesa. É o principal cemitério da cidade e o mais famoso do mundo. Fica no alto de uma colina, de onde se vê Paris. É bastante arborizado e, diferentemente do que se dá na maioria dos cemitérios, o lugar exerce sobre o visitante um certo sortilégio. É mágico. É fascinante estar aqui.
O nome constitui uma homenagem ao confessor de Luís XIV, Père de La Chaise, e seu terreno foi adquirido por Napoleão, em inícios do século XIX. O projeto dessa necrópole foi confiado ao arquiteto Alexandre Théodore Brongniart, em 1803.
É expressivo o número de pessoas que visitam todos os dias este campo santo. Sem que tivéssemos combinado, para que se tenha uma ideia, vamos cruzar com muitas pessoas conhecidas, brasileiros que, como nós, estavam aqueles dias em Paris e com as quais havíamos estado antes, em algum lugar. É curioso como um recanto destinado aos mortos, guarde tanta vida, tanta animação. Aqui, as pessoas riem, brincam, comem sanduíches e bebem refrigerantes. Uma festa. E muita fotografia, claro, que, para todos os efeitos, não é coisa permitida.
Os túmulos lembram monumentos. Repousam sob imensos blocos de pedra, como disse, celebridades. Consta que, pela incomensurável demanda da burguesia parisiense o Pére Lachaise teve de passar por muitas reformas e ampliações. A localização do cemitério, um lugar de difícil acesso, ensejou uma grande insatisfação entre os franceses, até que, para cá, viessem trasladados restos mortais de pessoas importantes da sociedade parisiense. Hoje, é motivo de orgulho para os franceses, e constitui uma das mais procuradas atrações turísticas da cidade.
Logo à entrada, numa pequena via ladeada por pilastras e grossas correntes, deparamos com um mapa do cemitério, em que se veem outras informações relevantes para o visitante. As ruas são pavimentadas, renques de árvores ladeando o caminho.
O primeiro túmulo que visito é o da escritora Colette, em cuja lápide se lê a inscrição sucinta: Ici repose Colette (1873-1954). Em seguida, o de Louis Visconti (1791-1853), arquiteto, um mausoléu imponente, encimado pela figura do artista em posição de descanso. A escultura é, sem si, uma obra de arte em estilo neoclássico do mais elevado nível.
E vou, agora sem a companhia do amigo espírita, que desabalara à procura do jazigo de Allan Kardec, percorrendo as alamedas pavimentadas em cujas laterais estão as sepulturas. Paro aqui, dou uma espiadela ali, demoro numa e noutra, leio as inscrições, os epitáfios, os elogios fúnebres gravados das mais variadas maneiras, sempre atento, contudo, sem jamais perder de vista o significado de estar na morada de muitos dos maiores vultos da história das artes, da filosofia e de tantos outros campos do conhecimento.
Louis-Jacques David (1748-1825) está logo ali. Diante do túmulo do pintor neoclássico, ocorre-me lembrar das suas obras vigorosas, vibrantes, a vocação para registrar os atos heróicos do povo. Vem-me aos olhos, num registro da memória, O Juramento dos Horácios, com que o artista celebra a arte, a glória e o patriotismo da Roma antiga. Vi-o, há poucos dias, no museu do Louvre. É um dos quadros mais belos da história da pintura e faz parte do conjunto de obras de que mais gosto, que mais admiro.
Adiante, lado a lado, dois monstros sagrados da literatura: La Fontaine (1621-1625) e Molière (1622-1673), próximo, a poucos metros, deparo com o mausoléu do pintor Jean-Baptiste Camille Corot (1796-1875). À esquerda, mais simples e não menos belo, o túmulo de outro grande nome das artes plásticas, Dominique Ingres (1780-1867).
E vou, sem perder o entusiasmo, visitando a morada de grandes nomes, paro aqui, passo a vista acolá, anoto uma coisa e outra, fotografo… O diário já cheio de rabiscos.
Agora, a dançarina Isadora Duncan (1877-1927), minutos depois, la famille Gasson-Piaf, onde repousa a genial Édith (1915-1963). Atrevidamente, solfejo La vie en rose, ao que me segue, num francês elogiável, o meu amigo espírita, que voltara finalmente à minha companhia.
E assim, concluímos a visita ao Pére Lachaise, duas ou três horas depois. Não sem antes irmos, ainda, aos túmulos de Oscar Wilde (1854-1900), Marcel Proust (1871-1922), autor que me fascinara com o seu monumental Em Busca do Tempo Perdido, George Bizet (1838-1875), Honoré de Balzac (1799-1850) etc.
Sobre a lousa de mármore dos túmulos, é comum se verem bilhetes, declarações de amor aos que ali repousam. No de Modgliane, para ficar num exemplo, sob pequenas pedras que lhes servem de peso, são incontáveis os papeis com referência à vida desregrada do pintor, um verdadeiro ícone da arte maldita.
Caía a tarde, quando deixamos o Père Lachaise, esta necrópole cheia de encanto, de mistérios, de poesia, que nos toca e emociona – e de que nunca vou me esquecer.
Álder Teixeira é Mestre em literatura Brasileira e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais
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